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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

3.1 - Independência de Portugal

O acaso das coisas produz, no que de início poderia parecer algo contra nós, o que de mais marcante pode representar o seguimento de actos sucessivos ou entrecortados pelo cruzamento de outras estórias, naquela história que a início parecíamos estar a fazer. Porque visto deste futuro, que mais não é do que presente, parece-nos que aquele passado foi seguido de linhas bem delineadas em projetos e visões; não podíamos estar mais enganados, pois nos parece hoje que a Verdade se encontra longe dos nossos sentidos e da expressão do que achamos ser a superioridade do intelecto.

Então a independência de Portugal como acto isolado na História é um mito pois não é um momento isolado no ano de 1143 que ditou a permanência daquilo que conhecemos por Portugal. Talvez, se quisermos ser ambiciosos, poderemos dizer que essa independência tomou o signo de toda uma dinastia, aquela que prepararia o símbolo místico e cultural da nação.

Mas essa tal História, como mito que é, também se baseia nos variados mitos em que cada Homem que a faz, crê. Parece-nos, pelos documentos que hoje se lêem e que nos acreditam essa tal História, que o nosso primeiro monarca recebeu, na rudeza da sua natureza, o título de rei por Afonso VII através do Tratado de Zamora, tratado esse que garantia-lhe o título mas não o livrava da suserania devida ao império da Espanha; parece também que tempos depois Afonso Henriques, num golpe que mistura mito e História - que mais não é do que o parecer ser da política – fez-se ouvir pelo divino Espírito Santo e depois pelo Papa através do Cardeal Guido. O Papado seria um dos pilares da construção da nossa independência, facto que não impedia o Papa de nas suas cartas nunca referir o título de rei a Afonso Henriques ou de reino a Portugal, diplomacia que serviu o sim e o não, que é para isso que ela serve.

Afonso Henriques lá continuou a sua empresa de guerra, muitas vezes utilizando os mais puros actos de guerrilha, como na tomada de Santarém indo pela noite às escondidas tomando as muralhas (quasi per latrocinium), outras tantas ajudado por exércitos de Cruzados vindos de todos os cantos da Europa, utilizando todos os meios e técnicas da guerra aberta da altura, como em Lisboa (1147).

Nada impedia Afonso Henriques de, inclusive, tomar territórios que, nos planos dos restantes reinos da península, não lhe faziam parte; tal foi o caso da tomada da Galiza num acordo com os barões do sítio, que apenas um ataque simultâneo de sarracenos e leoneses levariam o nosso monarca a seguir para sul e auto-proclamar-se rei entre 1139 e 1140 após a tomada de Ourique. Estavam delineadas as fronteiras e o caminho de imaginar Portugal, o que não impediram de Afonso Henriques tentar, uma segunda vez, tomar a Galiza (1166) num acto de pura paixão, tendo depois, com a avareza de tentar tomar Badajoz ao genro Fernando II, perdido de novo a Galiza para este último, no que foi um acto de perdão.

Com a morte, em 1185, de Afonso Henriques, Portugal encontrava-se já, em parte, imaginado; faltava chegarmos a 1249 para fundarmos o reino europeu com as mais antigas fronteiras, aquele elemento essencial para o que viria depois chamar-se República, Estado e soberania.

(continua dia 25)

3 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

Bom texto com linguagem muito interessante.
Mas muitas questoes:

Se Afonso Henriques era Afonso VII, entao era espanhol?. Nao percebi essa parte

Entao se o Papa não chamava Reino de Portugal. Como era designado o nosso país?
Na altura para se conseguir a independencia era necessário a benção do Papa?

Galiza. Esse nosso ultimo territorio. Como não conseguimos tomar definitivamente?

Como e que morreu D.Afonso Henriques?

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

Se leres com mais calma percebes que o Afonso VII de Leão é que, através do Tratado de Zamora, reconheceu o título de rei a Afonso Hemriques; e isto responde à tua segunda pergunta, pois para firmarmos a nossa independência tivemos de estar dependentes do papado, para não estarmos dependentes dos outros reinos espanhóis; foi uma jogada do que hoje se pode chamar terrorismo, mas que nos permitiu continuar e que, até o próprio filho de Afonso VII (que era também genro de Afonso Henriques) nos permitisse deixar soltos para cumprir as nossas fronteiras; portanto a nossa independência é também uma dinâmica familiar de paixões e perdões, talvez matéria interessante para romanceiros e historiadores.
Quanto à Galiza os erros foram sempre militares; não te esqueças que Afonso Henriques ao contrário do que escrevem e dizem nos manuais de História, utilizava recursos de guerrilha, pelo que era difícil para ele manter homens em territórios vastos; na primeira vez os barões da Galiza não conseguiram fazer frente a ataques de sarracenos e de leoneses; da segunda vez como perdeu a batalha de Badajoz frente ao genro, Afonso Henriques acabou por devolver a Galiza.

Francisco Castelo Branco disse...

Pois,

Parece-me um poder exagerado, (E os Papas tinham esse poder na altura), de que a independencia e reconhecimento dos reinos dependia da Igreja Catolica.

Por isso continuo sem saber quando Portugal "foi" reconhecidamente independente.
É que existem tres datas...

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