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sábado, 10 de outubro de 2009

OLHAR A SEMANA - AUTARQUIAS

1. Cerca de 300 autarquias em Portugal vão amanhã, Domingo, a votos. Escrevo antes de saber os resultados. Estas são eleições locais. Não existe uma lógica totalmente partidária como acontece nas europeias ou nacionais. Aqui estão mais em causa as pessoas dos canditatos. A sua obra, a sua personalidade, a sua empatia com o povo daquele concelho. Nestas eleições é frequente ver pessoas de um partido votarem em candidatos de cor diferente, porque acreditam ser eles os melhores para a terra ou por razões, por vezes, menos curiais.
2. Como se sabe, é nas autarquias que existe maior corrupção, maior compadrio e nepotismo. As autarquias são os maiores empregadores dos respectivos concelhos. Os votos são mais fáceis de "comprar". Basta dar emprego a um pai, a um filho, a um primo e toda a família e vizinhos ficam imediatamente agradecidos. Ao longo dos séculos e, particularmente, nas últimas décadas, as autarquias engordaram os quadros sem qualquer contrapartida de serviço público evidente e, simultaneamente, criaram empresas municipais para gerir tarefas municipais, com o alegado intuito, declarado, de agilizar a gestão. Uma contradição em si mesmo que só contribuiu para distribuir mais sinecuras a primos e enteados. Acresce que nas autarquias a pressão mediática é muito menor e por isso os abusos são menos escrutinados.
3. Nestas eleições, para além do natural peso que têm Lisboa e Porto, vai ser interessante observar o caso de Oeiras, terra onde vivo. De concelho periférico e dormitório de Lisboa, Oeiras ganhou uma pujança impressionante, sendo neste momento o segundo concelho de Portugal, logo a seguir a Lisboa, em vários índices quantitativos e qualitativos. A gestão autárquica está na mão de um dos dinossauros do poder local, Isaltino Morais, que nos últimos 18 anos transformou o concelho. Há cerca de três meses, depois de um conturbado processo judicial, ele foi condenado a sete anos de prisão efectiva, por actos relacionados com a gestão autárquica. Recorreu da sentença. Concorreu às eleições. Para ele, a ética jurídica é com os tribunis e a ética política com os eleitores. O curioso é que neste concelho, que tem a maior concentração de quadros superiores do país, as sondagens dão-lhe maioria absoluta!!! Na minha opinião, há dois aspectos relevantes para este resultado perspectivado. Sete anos de cadeia parece muito, quando por esse país fora há processos gravíssimos que acabam em absolvição ou em pena suspensa ou, ainda, que se arrastam por décadas sem resultados evidentes. O povo desconfia dos tribunais e Isaltino explora o "bode expiatório", transformando a condenação em perseguição política. Por outro lado, os restantes candidatos concorrentes são personalidades secundaríssimas dos partidos políticos que não arriscam personalidades fortes com receio de perder para um candidato "condenado".
4. Isaltino Morais, o novo Marquês de Pombal de Oeiras, vai vencer os tribunais, mesmo que acabe por ser preso. O povo vai legitimá-lo. O povo prefere quem faz obra e desconfia dos tribunais, cada vez mais politizados e instrumentalizados. Mais que a reforma das autarquias, pede-se a urgente reforma da Justiça que a credibilize e evite estes casos absolutamente patológicos, sob pena de perdermos totalmente a ética. É isto que penso das eleições autárquicas de amanhã.
Jorge Pinheiro

9 comentários:

João Menéres disse...

Um espelho da realidade em Portugal.
Perfeita a análise.
Um dia, estava num almoço no CHAMARRON (é assim ou doutra maneira?) no Parque das Nações, e sua excelência entrou para almoçar (noutra mesa !).
Fiquei perfeitamente esclarecido (para mim) que género era aquela excelência.
A prosápia com que se dirigia aos empregados, a postura à mesa e por aí fora.
Pobre PORTUGAL...

Eduardo P.L disse...

Ler em Portugues essas matérias relativas à política e administração pública, na Europa, tão distante de nós brasileiros, e com problemas e histórias tão parecidas e próximas de nós, somos levados a crer que o que nos une além da língua, do sangue, é a mazela!
Pobre de nós!

ellen disse...

Pelo ponto:
1
2
3
e 4...
eu não vou VOTAR rsssssss

Bom domingo

Francisco Castelo Branco disse...

Jorge, muito triste fico eu depois de ler o teu post.

Nao contigo, mas por saber que o "povo" de Oeiras e Felguerias não "cresceu" e acredita numa pessoa que foi condenada.

Este Portugal ainda precisa de crescer democraticamente.

Irá ter que sair daqui a 4 anos, mas de certeza que o vai fazer tranquilamente. A nao ser que se faça justiça e por fim Isaltino nao tenha possibilidades de cumprir o mandato até ao fim

Ainda temos que crescer democraticamente e não permitir que situaçoes como as de hoje voltem a acontecer.

Oeiras e Felgueiras são duas belas cidades que não merecem passar por isto...
Mas a culpa é dos eleitores...

Cleopatra disse...

Não sei quem vai ganhar por lá, em Oeiras, mas, a deslegitimização dos tribunais a que se vem assistindo, pode bem dar origem ao que o Jorge aponta, sendo certo que,o que o Jorge diz aqui: -" O povo prefere quem faz obra e desconfia dos tribunais, cada vez mais politizados e instrumentalizados" nada tem que ver com o facto de Isaltino ser eleito ou não.
O que aocntece é que os TRIBUNAIS LIMiTAM_SE a aplicar a lei que é elaborada, criada, feita pelo poder legislativo.

Muito diferente Jorge. Não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira ou, criar em quem nos lê que , a decisão sobre os crimes pelos quais Isaltino foi condenado é uma decisão politica.

Lamento mas não posso concordar ou calar.

Francisco Castelo Branco disse...

decisão politica??

como assim?

Nao percebo como é que o povo desconfia mais dos tribunais do que do SR.Isaltino e da Sra Felgueiras...

Não cabe na cabeça de ninguém

expressodalinha disse...

MAS É O QUE ACONTECE QUER QUEIRAM QUER NÃO. OS TRIBUNAIS (INCLUAM A LEI SE QUISEREM), SÃO NESTE MOMENTO O MAIOR CANCRO DESTE PAÍS. E OS TRIBUNAIS NÃO SE LIMITAM A APLICAR A LEI... ISSO É O QUE NÓS ESTUDAMOS!

Quase Blog da Li disse...

Jorge,
como sempre seu texto é impecável em todos os sentidos!
Faz bem ler o que vc escreve...
E como faz!!!
Concordo plenamente com o que o Eduardo escreveu; "Pobre de nós!"

Isabel Magalhães disse...

JP;

Vim ler o artigo.

Eu sou anti qualquer um que se julgue acima da Lei. Isaltino Morais julga-se acima da Lei...

Recuso-me aceitar a dicotomia do 'rouba mas faz' e/ou 'nem rouba nem faz'.

Lutar pela alternativa está na nossa mão enquanto munícipes e eleitores.

Abraço

IM

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