terça-feira, 22 de setembro de 2009

Especial Legislativas: Saúde

Alguém já reparou que a saúde é uma eterna insatisfeita? É que por muito que se faça, muito fica por fazer.
. Nos últimos quatro anos existiu uma aposta clara na melhoria da rede nacional de Cuidados Continuados e, na minha opinião, esta foi a grande batalha ganha pelo actual governo na área da saúde. Inauguraram-se unidades de internamento de curta, média e longa duração, abriram novas unidades de convalescença. É preciso dar a mão à palmatória. Aqui o actual executivo tem trabalho feito, independentemente das arestas a limar (número reduzido de pessoal, precariedade, inexistência de médicos).
. Muito se falou também de cuidados paliativos. A aposta foi feita, mas com poucos ganhos visíveis. Na realidade os cuidados paliativos de qualidade ainda são para aqueles que os podem pagar. Curiosamente, o rosto dos cuidados paliativos em Portugal, Dra. Isabel Neto, pertence às listas do Partido Popular nestas legislativas.
. No que concerne à reestruturação da rede de cuidados de saúde primários, as Unidades de Saúde Familiar começam a aparecer, umas a funcionar bem, é verdade, mas a grande maioria com sérias dificuldades, quer seja na constituição quer no funcionamento em si. Já as Unidades de Cuidados na Comunidade continuam a ser uma utopia. Não existe uma única unidade em funcionamento actualmente (corrijam-me se estiver enganada), e o que se verifica em campo é uma confusão enorme, com formação insuficiente para os profissionais e burocracias sem fim.
. Em termos hospitalares temos o do costume, listas de espera, pouco pessoal, grupos disciplinares sobrecarregados com burocracia que lhes encurta o tempo que deveriam destinar à prestação de cuidados… Depois há as camas que fogem e… Pois, a Gripe A. Mas desta já foi quase tudo dito, a não ser que… Hmmm, deixa lá ver, já alguém aqui falou das ameaças veladas por parte dos enfermeiros, em luta contra a proposta salarial do Ministério da Saúde? Pois é, fala-se à boca pequena de uma greve por tempo indeterminado na altura do pico da gripe A. Falam-se em medidas radicais. É que os enfermeiros continuam a não ser pagos como licenciados e o ministério voltou a apresentar uma proposta que desagrada à totalidade da classe. Acreditem em mim, isto ainda vai dar muito que falar! É que aqueles que muitos acreditam só servir para “lavar rabos”, afundam o sistema de saúde se decidirem parar. Vamos ver o que vem a seguir.
. Também é objectivo deste governo criar uma carreira para os Tripulantes de Ambulâncias de Socorro, carreira essa que, nos actuais moldes, irá usurpar funções de outros grupos profissionais e permitir que pessoal não especializado, sem formação universitária, em troca de uma formação de 1475 horas, possa realizar manobras invasivas, administrar medicação, etc. Inicialmente Teresa Caeiro e Hélder Amaral (CDS-PP) manifestaram-se contrariamente a esta posição governamental argumentando existir pessoal mais qualificado para estas funções, actualmente no desemprego. No dia 10 de Julho, contudo, numa impressionante e repentina alteração de posição, estes dois deputados interrogaram a Ministra da Saúde, mostrando-se favoráveis a esta nova carreira.
. Geralmente envolta em polémica a saúde é, claramente, uma mulher. Qualquer uma. Seja a que cegou no Hospital de Santa Maria, seja aquela que necessita ir para Cuba para voltar a andar. Mas nada disto é novo, nada disto é obra exclusiva do engenheiro José Sócrates. O buraco em que se encontra a saúde em Portugal foi cavado por muitas e distintas mãos. Em algumas freguesias não existem médicos há mais de quatro anos, em inúmeras enfermarias deste país há, nas noites, um enfermeiro para trinta ou quarenta doentes, em muitos hospitais os corredores são autênticos serviços de internamento. Queixam-se os doentes, queixam-se os profissionais. E quem todos os dias por lá anda só consegue pensar “até quando, até quando?”.

4 comentários:

expressodalinha disse...

Bem regressada. Muito bom o artigo. Concordo com quase tudo. O que me aflige como utente, felizmente só observador, é a sensação de caos permanente quando se vai a um hospital. Parece que tudo está à beira da roptura. Depois tb. faz confusão a componente excessivamente burocrática e a profusão de pessoas que frequentam estes locais sem, notoriamente, precisar de lá ir. Pessoalmente só irei para um hospital se estiver inconsciente ou fôr levado à força. É lá que se apanham a maioria das doenças.

Francisco Castelo Branco disse...

Bem regressada igualmente. Espero que seja um regresso definitivo.

Fora do contexto do texto queria-te fazer algumas perguntas :

1- Como avalias a actuação da Ministra, nomeadamente na questão da Gripe A.

2- Como é que viste a questão do encerramento das urgências?

Em relação á Saude, acho que houve melhorias. Novos hospitais, novas medidas, essas dos cuidados paliativos é um bom exemplo.

Não tenho a certeza se as listas de espera continuam um caos.
Na minha opinião, acho que se renovou o Parque Hospitalar e este governo, na minha opinião trabalhou muito nesse sentido. o Ministro Correia de Campos tb teve quota parte neste Mini Sucesso.

Acho que a Saude e Educação, de que falaremos amanha, foram duas boas bandeiras do Governo.
E são dois temas MUIto Importantes!

Sol disse...

Expresso: Obrigada! Os compromissos profissionais são muitos e não me tem sido possível colaborar com a frequência que gostaria.

Francisco:

A gripe A, para esta ministra, foi uma sorte! Desviou as atenções de coisas muito mais importantes mas com menos impacto na opinião pública como são o caso da reestruturação de rede nacional de cuidados de saúde primários ou as carreiras (e pseudo carreiras) que se pretendem criar / arruinar.

Uma coisa é certa. Esta ministra é médica. O que faz é com conhecimento de causa, ao contrário de outros ministérios orientados por alguém que tem uma formação completamente diferente da área em causa.

A ministra lidou bem com a situação, fez aquilo que era esperado e, principalmente, não alimentou histerias. É que a preocupação excessiva com a saúde está na moda e, nesse campo, a postura da ministra foi adequada.

Oxalá tivesse sido assim tão adequada quando tratou colegas (pq as equipas de saúde são interdisciplinares) como subalternos, ou quando ignorou os ecos dos enfermeiros da saúde 24 que denunciavam a podridão que por lá reinava (mas vai o governo e zás, renova o contrato para depois vir dizer que assim não pode ser). Oxalá tivesse sido assim tão adequada quando permitiu (ou fechou os olhos, não sei) que as competências técnicas de algumas profissões fossem roubadas por outras.. Oxalá, oxalá... Mas isto (quase) ninguém viu. E a Gripe deu um jeitão. Tapou-se o sol com a peneira e siga.

As urgências? lol Ai Francisco... Se eu te disser que andei em buzinões e cortes de estrada para evitar o encerramento das urgências da minha cidade, ficas respondido?

Sabes, elas fecharam mesmo. Mas depois, miseráveis dias depois, faleceu uma senhora por falta de assistência atempada (pq o hospital mais próximo fica a 60Kms) e elas lá reabriram e ficou tudo bem na mesma.

A nossa saúde cheira a podre.

Francisco Castelo Branco disse...

Bem se tu o dizes, entao está assim tao mal

É que pensava mesmo que as coisas estavam a melhorar

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