quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Especial Legislativas : Educação

Este é um texto difícil de escrever. Muito há para dizer, mas como o fazer é outro assunto. O que anima as pessoas é discutir as parangonas e estas raramente abordam os problemas reais. Assim foi nos últimos anos e presumo que dificilmente mude no futuro. O que foi feito nada tem a ver com uma política educativa e nunca em nenhum momento houve uma tentativa séria de resolver os problemas que afectam as escolas e todos os seus intervenientes.

Em Portugal aprecia-se muito a maledicência. Não a que apregoa o nosso primeiro ministro, mas antes a que resulta do básico sentimento de invejar o próximo. E neste particular somos de facto únicos. O normal quando se inveja é almejar o próprio objecto que desperta o sentimento. Por cá gostamos bem mais de destruir o objecto. É mais simples. Se o objectivo se centrar na obtenção do que não temos implica trabalho. E essa é uma palavra proibida.

Podem mascarar a realidade com Cursos de Educação Formação ou validar competências e chamar-lhe Novas Oportunidades. Podem divulgar vezes sem conta o investimento no ensino profissional. A realidade, porém, e que todos na escola conhecem, confunde-se com o resto do país. O laxismo é total, tudo funciona em nome da estatística e desajustado está o profissional que tenta verdadeiramente ensinar. A palavra de ordem é adaptar, reformular, reorganizar. Tudo o que garanta o sucesso do aluno. O sucesso é bom, todos concordamos, mas não interessa a todo o custo. A situação actual, o louvor da estatística que tanto anima alguns, é apenas comparável ao de um atleta dopado. Ganha, festeja, todos festejam com ele, mas o futuro apenas lhe proporcionará a tristeza de enfrentar a realidade. E acreditem que é este o cenário actual.

Para se atingir algo é necessário trabalho. E para se obter um diploma é preciso mérito. Se assim não for, para nada serve. O país tem de uma vez por todas de fazer esta opção. Até porque tudo isto custa muito dinheiro. É muito bom falar de ensino universal e gratuito. É excelente alargar a escolaridade obrigatória. Apenas é necessário afirmar, e vezes sem conta, que a contrapartida exige esforço. E esforço de todos os seus intervenientes.

A escola não pode sofrer com as angústias dos outros. Ela não existe para cuidar das crianças durante o horário de trabalho dos pais. O problema existe, é um facto, mas a escola não deve fazer a vez da família. E é perverso pensar que as escolas têm de acompanhar o horário de trabalho dos pais. Em muitos países da Europa procura-se adaptar o horário de trabalho ao das escolas e não o contrário. Transformar as escolas em depósitos desvirtua-as e isso transmite-se e reflecte-se no trabalho diário. Outra questão fundamental é que a escola não pode, não deve, substituir os pais no seu papel de educadores. Educar uma criança é algo que se faz em casa. Na escola ensina-se. Os professores devem centrar o seu trabalho na sua verdadeira função de transmissão de conhecimentos. Não devem ser psicólogos ou assistentes sociais, por muito que fique bem afirmar o contrário. Aliás, o «eduquês» de que tanto se fala é isto mesmo. O menino é mal comportado? Vem de um meio social difícil. Não consegue atingir os objectivos? É porque tem dificuldades de aprendizagem. E por aí adiante até ao diploma final.

Resumindo, muito tem de mudar. É se calhar necessário assumir que vamos perder uma geração. Os últimos quatro anos foram marcados por muita contestação, que não pode, nem deve, ser esquecida. Essencialmente porque quando a poeira assentar, apenas vai ficar a sensação de vazio. E o futuro não é risonho, pois de nada serve substituir iletrados por analfabetos funcionais.

texto de Jorge Marques

21 comentários:

Ca Delicious disse...

FALTAM 7 DIAS PARA O FIM! VOTEM www.rumoantarctica.com
PASSEM A PALAVRA: Não há cá coligações entre Norte-Americanos, estratégias manhosas que nos vão apanhar, fazemos jogo limpo, somos honestos e estamos em grande por causa disso!!

Francisco Castelo Branco disse...

"Educar uma criança é algo que se faz em casa. Na escola ensina-se. Os professores devem centrar o seu trabalho na sua verdadeira função de transmissão de conhecimentos. Não devem ser psicólogos ou assistentes sociais"


Eis algo que eu discordo por completo.
Também cabe á escola "educar".
Porque é na escola que as crianças passam a parte do dia e até da vida.
Em casa apenas passamos 4 ou 5 horas!
E muitas vezes nem sequer conseguimos estar com os pais pois eles estão a trabalhar.....

E a vida inteira é passada na escola, desde o basico, secundário passando pela faculdade.
é nela que arranjamos os nossos melhores amigos e temos as nossas namoradas.

Por tudo isto, a escola tb deve educar e formar.
Nao cabe só a um professor, mas a uma universalidade chamada "escola" que envolve também os pais.

e um dos erros da "nossa" escola é o facto dos pais estarem muito ausentes do ambiente escolar.
Porque "passam" a vida a trabalhar.

Os pais deviam estar mais dentro do papel e funcionamento da escola.
É muito importante para a formação de uma criança

Jorge disse...

Não estás em desacordo. Não lendo o que escreveste depois. Claro que na escola também se educa. Não é essa, porém, a sua principal função. Era o que pretendia realçar. E essa é a confusão maior deste «eduquês».

Abraço

Francisco Castelo Branco disse...

O que é então o eduquês?

Jorge disse...

O «eduquês» é a desvalorização do ensino de conteúdos científicos. Pelo menos é assim que o entendo. Valorizam-se atitudes e valores em detrimento dos conhecimentos. Educar passa a ser mais importante que ensinar. E, repito, essa não é a principal função da escola. A escola é um espaço de transmissão de saberes e sem essa função vale muito pouco. A menos que se pretenda alargar o pré-escolar até ao 12º ano. Infelizmente, e passe o exagero, é o que vai acontecendo.

expressodalinha disse...

Francamente ando muito longe das questãoes do ensino e da problemática dos professores e das avaliações. Não sei quem tem razão e, francamente, não me interessa. Só sei que é deplorável o ensino e as reformas conduziram a este estado de coisas. Sinceramente até eu fazia melhor. Penso que neste momento só há uma coisa a fazer: exames muito rigorosos, a começar pelos professores.

Jorge disse...

Quais professores? Os universitários? É que são esses que habilitam os restantes. E as reformas foram feitas por eles. Gostem ou não de ouvir. Um dos grandes males é a pasta da educação ter sido sempre entregue a alguém vindo do superior, que apenas encontra defeitos nos graus inferiores ao seu.
Era nisso que David Justino era diferente nas suas propostas. Simplesmente mal chegou ao governo tiraram-lhe a pasta do superior. O problema é global e não se resolve com exames. Daí dizer que se calhar é preciso perder uma geração. Ela já está, de resto, perdida.

Francisco Castelo Branco disse...

Então a introdução do Ingles? do alargamento do horario de funcionamento das escolas para adequar aos horarios pais?

E o desporto?

Não foram boas medidas...

Jorge disse...

Medidas essencialmente de cosmética. É discutir a agenda, discutir as parangonas. Adorava que aí se encontrasse a solução, porém. Era bem mais fácil.

Francisco Castelo Branco disse...

Mas jorge são boas medidas.

Nao podemos só apontar o que está mal

Ha muito tempo que os pais nao tinham onde deixar os filhos e a escola. E esta como ja disse é muito importante para a formação....

Acho que foram medidas muito importantes.
Tal como o exame no 9ano....

Francisco Castelo Branco disse...

Afinal nem tudo é mau

Jorge disse...

A escola não serve para deixar os filhos. Não é um depósito. Isso não faz sentido. E sabes certamente que muitos ATLs acabaram. Eram a solução anterior. E muitos funcionavam maravilhosamente. Há muito mais para analisar do que estas medidas avulsas que não respondem ao problema de fundo.
E que exame do 9º ano. Aquelas provas de Português e Matemática são para rir. Ah... E antes havia provas em todas as disciplinas.

Mas o que querem ouvir é que foram feitas coisas boas? Poucas, mas foram. E dificilmente estão ligadas aos temas mediáticos. Esse só servem para distrair.

Insisto que não quero voltar a discutir estas questões. O que de melhor o governo fez foi convencer que estava a fazer bem. E já sei que não vale a pena contrariar. Uma imagem vale mais que mil palavras...

Francisco Castelo Branco disse...

Jorge já vi que existe uma profunda discordância em relação a este tema.

Mas não é de agora. Já da primeira vez que fizeste um post sobre Educação, discordámos do mesmo.

Eu pelo que tenho lido, visto e notado as coisas estão um pouquito melhores.
Estas medidas atrás acho que são bons indicadores

mas eu não estou no terreno...

Jorge disse...

Estão mesmo piores. E se estivesses no terreno saberias. O problema, porém, é constatar como a opinião de uma classe profissional inteira é totalmente desconsiderada. Esse foi o caminho escolhido e tão bem aceite por todos. Mas nada trouxe de bom.

Francisco Castelo Branco disse...

O problema é que dá a ideia, e repito dá.....; de que os professores não querem ser avaliados.

E que Mario Nogueira apenas contesta por contestar.

mas provavelmente é uma ideia errada.
Ou então houve as "ditas" falhas de comunicação...

Jorge disse...

Mas julgar pela ideia que dá... tivessem os professores a máquina de propaganda do governo. São armas diferentes. Mas sobre avaliação já disse tudo. E não é esse o tema do texto. Para falar a verdade nem refiro a maioria das questões que levou os professores à rua. Não é o fundamental.

Abraço

Francisco Castelo Branco disse...

então os professores nao foram para a rua por causa da avaliação?

Jorge disse...

A esmagadora maioria não. Foi por causa do estatuto do aluno e da carreira docente. A avaliação foi a gota que fez transbordar o copo. Isto foi dito até à exaustão. Os professores não são culpados de não quererem ouvir.

Francisco Castelo Branco disse...

Ok Jorge

Francisco Castelo Branco disse...

Só passei por cá para dizer que gosto destas discussões contigo sobre educção.
Aprendi imenso.

É sempre bom ouvir quem é especialista na matéria.

Por alguma razão estes teus posts têm sempre muitos comentários

Jorge disse...

Sempre um prazer.

Abraço

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