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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Especial Legislativas : Economia

É praticamente consensual entre os economistas com autonomia de pensamento que o desempenho económico do regime soçobrou por meados da década de 1990, quando o bem sucedido ímpeto reformista dos primeiros governos do actual Presidente da República e os ganhos de comércio da adesão às então Comunidades deixaram de ter impacto relevante no nosso crescimento. A partir daí, e apesar da ilusória prosperidade do final dos anos 90, a economia portuguesa deu todos os passos necessários para chegar ao triste ponto a que chegou.

Numa economia que à partida tinha baixos níveis de qualificação da mão-de-obra, um claro défice infraestrutural, mercados relevantes em regime de monopólio ou duopólio e uma estratégia de competição assente na prevalência de baixos salários em boa parte do sector exportador, os benefícios da entrada na União deveriam ter funcionado como alavanca de resolução destes problemas estruturais. Todavia, a prosperidade dos anos 80 e início da década de 90 apenas resolveu parcialmente os constrangimentos resultantes da má dotação infra-estrutural do país mas não se soube obter a rendibilidade adequada dos enormes investimentos canalizados para o sector da educação, sendo a produtividade ainda pouco mais de metade dos valores do centro da Europa. Entretanto, o Estado aumentou de dimensão e a Despesa Pública cresceu insustentavelmente apesar da quebra da factura de juros da dívida função da redução do stock de Dívida Pública em resultado da venda maciça de activos empresariais públicos. Acresce que a euforia despesista do Estado se estendeu às famílias, num contexto em que os salários cresceram acima da produtividade (os custos unitários da mão-de-obra aumentaram ininterruptamente em toda a segunda metade dos anos 90), e o país entrou nesta década numa situação economicamente insustentável.

Em consequência, não só os constrangimentos estruturais não foram debelados como a política de rendimentos ajudou a uma grande perda de competitividade que se reflecte numa dívida externa crescente e já insustentável. Por outro lado, e muito negativamente, a taxa de poupança é baixa e a economia portuguesa encontra-se demasiado exposta à concorrência dos países asiáticos e latino-americanos que já alteraram definitivamente os equilíbrios de forças no comércio internacional. A evidência empírica disponível mostra que Portugal era, de todos os países da OCDE, o que mais tinha a perder com a concorrência de países como a Índia ou a China já em 1996. E que de 1996 para 2004 a situação portuguesa não só permaneceu a mais frágil como a distância face aos países mais "protegidos" aumentou. Estes factos, por si só, dão-nos uma boa pista sobre os enormes ajustamentos necessários a curto e médio prazo na economia portuguesa, com o consequente impacto no desemprego. E, consequentemente, dão-nos também ideia da violência e profundidade do ajustamento que há que fazer em Portugal.

Chegados a este ponto apetece perguntar: este tema está a ser tratado pelos principais partidos que se dispõem a governar Portugal? Infelizmente, não está. Nos últimos meses a oposição à direita juntou-se à maioria dos economistas e chamou a atenção para o erro que é combater uma crise hoje com despesa no futuro e à restrição sufocante que o endividamento externo nos coloca. Mas fora isso, o discurso hoje é pouco mais que uma série de declarações de amor e atenção ao novo fetiche dos políticos portugueses: as PMEs. Como se vai ultrapassar a nossa crise estrutural é, politicamente, um mistério.

Texto de António Nogueira Leite

1 comentário:

Francisco Castelo Branco disse...

Antes de mais, queria agradecer ao António Nogueira Leite a disponibilidade para participar neste blogue

Depois, concordo em que os partidos não estão a discutir estas coisas. E por estranho que parece, o desemprego e a economia também não estão a ser objecto de discussão politica.
Fala-se muito em desemprego e PME´s mas de medidas concretas. Nadinha!

Porque razão é que Portugal e os portugueses continuam a gastar sem terem atenção às poupanças???

Estranho é que num país como Portugal que sempre teve uma economia fraca seja talvez dos países onde se gasta mais....

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