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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Defesa dos partidos : PS

Estas eleições legislativas extremam questões teóricas e práticas que não são novas na politica nacional mas que adquirem maior visibilidade desde o fim do guterrismo. As práticas saltam a vista: com a gradual mudança que José Sócrates tem operado no PS, uma mudança geracional com consequências ideológicas (iniciada aliás no segundo governo Guterres e prosseguida na oposição por Ferro), associada ao estiolar do PSD em vários partidos que se confrontam já abertamente (vide a perseguição de Ferreira Leite a Passos Coelho), a bipolarização à portuguesa não é tanto entre Esquerda e Direita como entre clubes: os ppd's e os ps's, os da oposição e os do governo, os ferreiristas (?) e os socratistas. É um tanto desolador, e pode potenciar a abstenção ou o voto irracional, mas o facto é que este estado de coisas não é novo e tem a sua origem na presidencialização da figura do Primeiro-Ministro (patente desde que Cavaco ganhou a primeira maioria absoluta), processo potenciado pela exploração mediática, um mercado em permanente radicalização.

Votamos num partido (e nas suas propostas)? Num governo (e seu registo)? Num candidato (na sua personalidade)? Em tudo, mais ou menos confundido? A emocionalização da política faz-se desta confusão do que deveria ser simples. As escolhas entre Esquerda e Direita devem ser mais ou menos claras (e, actualmente, Portugal tem uma das maiores distinções de sempre entre os dois campos), mas não parecem motivar a opção de voto. O que conta é o clubismo: em vez de eleger deputados de um partido, em função da adesão a um programa, discute-se quem fez isto ou aquilo no Verão Quente de 1975; em vez de avaliar um governo pela sua capacidade de executar o seu programa, há «os casos» em série, todos a apagarem-se uns aos outros (logo com este governo, o primeiro a adoptar sem alterações o programa eleitoral como programa de governo...); em vez de apreciar uma personalidade política pelo que ela tem de político (as alterações que conduziu na sua estrutura partidária como teste para o que poderia fazer no Governo do país), fica-se a conhecer as casas, as piadas de que se ri...

No entanto, poucas eleições podem ser mais claras do que estas:

- a Direita volta com os mesmos candidatos e as mesmas políticas que há 5 anos atrás

- e já são os mesmos há mais de 20 anos... (e nem vale a pena falar do soba da Madeira!); - a Esquerda que se reclama «única» (talvez por isso nunca se entendam, o BE e o PCP), permanece onde estava há 10 anos, pronta a minar um governo minoritário do PS

- porque para a táctica do «quanto pior, melhor», velha de mais de 30 anos, isso é o ideal;

- o PS aposta nas armas que lhe deram a sua primeira maioria absoluta, indiferente ao facto de o mediatismo, a personalização, a presidencialização da figura do PM (com fífias como a mandatária Patrocínio e tudo), serem hoje métodos bem duvidosos de contrariar a abstenção que é a maior ameaça à governabilidade de qualquer governo.

Tal como nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, o verdadeiro adversário de um partido que ambiciona governar é a abstenção. De tal modo que foi por esta que o PS perdeu essas eleições e foi a vitória que o PSD nelas obteve imediatamente revelou a sua incapacidade política. Isto porque governar significa exercer o poder para causar ou controlar mudanças, e isos implica uma estratégia.

Debaixo do rebuliço mediático e das confrontações partidárias, por trás de cálculos sobe eleições daqui a 2 anos (como se alguém soubesse quem lidera os partidos de governo e da oposição então e quem será o próximo Presidente para prever alianças parlamentares viáveis em 2011...), qual o espaço para a política entendida como estratégia de mudança de Portugal?Apesar das reservas já referidas à estratégia eleitoral seguida pelo PS, de presidencialização do PM, de personalização em Sócrates, de formatação mediática de tipo publicitário da sua mensagem, o facto é que existe um registo de opções e uma afirmação programática clara para a sua prossecução.

Apoiado na contenção orçamental de 2005-8, pode apostar, como já faz, no investimento público para contrariar a crise actual. Há outra proposta mais viável?

Apoiado na reforma da Segurança Social, contra a ideia da sua condenação, propalada no governo PSD/CDS, pode corresponder aos efeitos imediatos da crise. Poderia ser outra a opção de um partido de Esquerda?Modernizando a economia, Portugal é hoje um dos países mais avançados do mundo no campo das energias renováveis, a principal saída da dependência energética do exterior e do défice externo. Daí a recusa em qualquer opção pela energia nuclear no futuro. Há racionalidade económica e ecológica mais conseguida?

Na formação de recursos humanos, os professores têm hoje a colocação a tempo e horas (embora, talvez, haja quem tenha saudades da Compta...), por 4 anos (velha reclamação atendida por este governo) e melhores instalações; os alunos, um ensino mais sistematicamente avaliado, um programa internacionalmente reconhecido de acesso a tecnologias de informação e uma escola que apoia vida familiar (nos horários e na diversidade do ensino, desde a música às ao Inglês); a população adulta em geral, programas de regresso ao ensino, de ensino profissional e de reconhecimento de competências adquiridas profissionalmente. Apesar de todas as pressões sofridas, nada foi abandonado e tudo será desenvolvido. Quem apresenta uma estratégia mais consistente?Para não prosseguir indefinidamente: nas questões de costumes, descriminalizou-se o IVG de modo a deixar a reacção sem argumentos (graças a um referendo que o PCP rejeitava...); alterou-se a lei do divórcio; compromete-se agora o PS a rever a questão do casamento homossexual na próxima legislatura. Quem quer discutir coerência?Enfim, fácil é ficar preso na vida política feita de casos e não votar, dizendo que são todos iguais. Mas desde a extrema Direita à extrema Esquerda as diferenças são hoje bem nítidas. A do PS faz-se pela política seguida e pelo compromisso com o futuro. Quem quiser outro Governo que o encontre. Boa sorte.

texto de A Linha ( www.clube-a-linha.blogspot.com)

10 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pela Post.
Dá que pensar...
Não gosto muito do título... defesa dos Partidos...

Abraço,
Jaime
Lx

Francisco Castelo Branco disse...

É um bom texto e aqui agradeço a participação do CLube de Reflexão politica.

É verdade que o PS conseguiu e introduziu reformas importantes. Eu como advogado, sinto isso na pele com o SIMPLEX. Pois, hoje é possivel pedir uma certidão de qualquer coisa e de qualquer lugar do país em Lisboa.

Também não é mentira que foi o govenro do PS que pela primeira vez em 30 anos introduziu um sistema de avaliação de professores e isso foi uma grande medida.

Somos o pais mais avançado do mundo em energias renovaveis e Socrates fez coisas boas.

A unica falha dele foi o desemprego. Talvez a maior falha dele e do seu governo.
Para além de não ter resolvido o problema ( é o mais grave e aquele que as pessoas sentem...); ainda aumentou-o.
E a primeira prioridade de Socrates era essa.
Veremos se vencer no dia 27, se no segundo mandato, o PM preocupa-se com esse factor em vez de andar TODOS os dias a falar no TGV; como este fosse o salvador da economia portuguesa

Francisco Castelo Branco disse...

O titulo é da minha autoria. E não do autor deste post.

Francisco Castelo Branco disse...

Mais uma coisa:

Nós votamos na pessoa, no partido, na organização.

Mas essencialmente é naquele que está a ser candidato a PM.
é ele que nos influencia porque também aparece mais vezes

expressodalinha disse...

Acho fundamentalmente que estamos a votar na credibilidade e na governabilidade. Ou então estamos de tal forma distanciados ideologicamente que temos de votar como protesto (desde voto em branco, até BE ou CDU - o CDS ainda não percebi o que é devido às totais e absolutas contradições entre a liderança e a suposrta ideologia). Portanto, uma vez que a oposição não oferece nada, para mim nem há discussão. Perante um trabalho de quatro anos, não vão ser duas ou três duvidosas patacoadas que fazem qq diferença. O TGV? Mas isso é algum assunto de campanha? Não há mais? Até fico parvo.

Francisco Castelo Branco disse...

mas nao se fala noutra coisa que nao o TGV....

de desemprego? nada...

Paulo Gonçalves Marcos disse...

Posso sugerir que vejam o www.trocasdeopiniao.eu

Marta Sousa disse...

Considero uma aberração Sócrates vencer as próximas eleições com uma nova maioria absoluta. Seria de loucos! Apesar da última sondagem ter dado uma subida ao PS estou convicta que os socialistas vão perder estas eleições. No passado Sábado a minha opinião era substancialmente diferente. Curioso que quando se fala em quem vai ganhar as eleições emerge um "monstro" político chamado BE e parece que ninguém lhe dá atenção! Esse sim é um problema a médio prazo.

Diga-se que entre estar no governo o PS ou o PSD as coisas não mudam tanto quanto isso. Se estiver o BE a coisa já muda de figura. Pessoalmente não gostaria nada de ver o BE a governo mas temo que isso aconteça em breve.

Marta Sousa disse...

Refiro-me à possibilidade do BE ser governo dentro de 8 anos se continuar com esta subida monstruosa que (pelo menos as sondagens) demonstram.

Francisco Castelo Branco disse...

Marta

Por muito que o BE continue a subir, duvido muito que chegue a ser governo.
Penso mesmo que depois destas eleiçoes, a votaçao do BE irá descer.
Tb foi assim com o CDS. tb teve os seus tempo aureos.

Ou entao havera uma grande mudança na sociedade portuguesa

Veremos

Mas o voto util será sempre entre PS e PSD

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