quarta-feira, 24 de junho de 2009

Civilização, poder e conflito. (I)

Parte primeira:

Uma das maiores discussões do final do século XX e princípios do XXI foi certamente o conceito de civilização e a consequente mudança na Ordem Global. Muitos investigadores se debruçaram sobre estas temáticas tendo, contudo, pouco sucesso nas conclusões a que chegaram. Temas como o terrorismo e as agressões ao ocidente das civilizações que estavam subjugadas ao mesmo não foram devidamente equacionados nem levados em conta. Autores como Huntington apesar de fazerem valer uma visão mais cautelosa face aos problemas do referido "Choque Civilizacional" não conseguiram efectivamente prever sequer 1% das mudanças gigantescas de que a nossa sociedade foi alvo desde o final da Guerra Fria até aos nossos dias.

Como é sabido os Estados Unidos são o Estado mais forte actualmente no planeta e, como sabemos também, só o foi com toda a clareza a partir do final da II Guerra Mundial apesar de, no final da I Grande Guerra, já demonstrar alguma supremacia. Ora, a partir de então os EUA estiveram sempre em Guerra. Podemos mesmo afirmar que sem a Guerra a hegemonia americana deixa de existir. Grande parte da tecnologia de ponta que é conhecida deriva de pesquisas feitas em prol de aperfeiçoamento do material bélico americano, a economia americana tem a guerra (e tudo o que ela move e implica) como um estimulante da sua economia. Como em tudo, na política não social dos Estados Unidos, ninguém se preocupa que rolem umas cabeças de soldados americanos de vez em quando, nem tão pouco que rolem as cabeças dos civis ou ainda que se gere um ódio anti-ocidental por parte dos povos que são constantemente invadidos, atacados e desrespeitados pelo poderio, supremacia e falta de respeito da "America's Army"

Como é certo, toda a situação de insegurança (ou de aparente insegurança) que vivemos nos nossos dias é reflexo não só de políticas extremistas de países sub-desenvolvidos que querem a todo o custo vingar aqueles que impedem o seu efectivo desenvolvimento assim como dos Estados que durante anos massacraram e massacram as aspirações à liberdade e à independência (financeira) desses mesmos Estados.

Parte segunda:

Actualmente estamos a viver a queda progressiva da civilização ocidental. Como todas as civilizações a nossa terá um fim e esse fim ao que tudo indica está muito perto de acontecer. Os gigantes económicos: China, Índia e Japão prometem tomar muito em breve o trono do ocidente. A ideia pessoal que eu tenho e que também é focada por alguns autores é que as sociedades que têm (ou sentem ter) factores culturais em comum geralmente unem-se e formam grandes blocos. Assim se passou no mundo ocidental com a Europa e a América do Norte a unirem-se para imporem a sua hegemonia económica e agora o mesmo se passa com os países asiáticos que se uniram para retirar ao Ocidente o poder de maior civilização mundial. Esta união tem um custo, e esse mesmo custo é naturalmente o proteccionismo dos países que se unem face aos restantes. Em última análise esse mesmo proteccionismo pode levar a conflitos de extrema gravidade entre blocos. O Ocidente quando impõe as suas políticas capitalistas e democráticas (ou pseudo-democráticas) aos restantes povos está a agredir os mesmos dado que está a fazer a imposição de uma vontade própria não olhando às reais pretensões dos mesmos, ou seja, coloca em causa a autodeterminação dos povos. A imposição da cultura ocidental nem sempre é aceite por todos os povos, este é um conceito que temos que ter como certo.

Hoje em dia vivemos uma Guerra Fria tal qual no pós-guerra de 45. Existe um grande bloco e depois uma série de pequenos blocos como o islâmico, o asiático, o sul-americano etc. Na minha perspectiva pessoal, tudo isto acaba por ser muito mais grave que o conflito da Guerra Fria porque o que está aqui em causa são tensões de ordem cultural e civilizacional e não questões de ordem política ou bélica. Segundo Vaclav Havel os conflitos de culturas podem ter dimensões alarmantes dado que os pressupostos de cariz filosófico e cultural diferem grandemente entre as diversas civilizações.

(Texto com continuação)

11 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

Marta

bom texto
Já vi que és uma cabeça pensante.
Isso é bom..

Quanto á primeira parte

"toda a situação de insegurança (ou de aparente insegurança) que vivemos nos nossos dias é reflexo não só de políticas extremistas de países sub-desenvolvidos que querem a todo o custo vingar aqueles que impedem o seu efectivo desenvolvimento assim como dos Estados que durante anos massacraram e massacram as aspirações à liberdade e à independência (financeira) desses mesmos Estados."

Referes-te aos EUA? Bem, acho que podemos agradecer aos Estados Unidos nos terem livrado do Nazismo na II Guerra, do Comunismo na Guerra Fria, da supremacia do Irão na guerra Kuweit - Iraque.
E agora no forte empenhamento na luta contra os talibas e terrorismo, que só os EUA estão a travar.
Não concordo que certos Estados ameaçem a liberdade de outros. O que acontece é precisamente o contrário....
Ora no Iraque, de uma ditadura virou uma democracia

Francisco Castelo Branco disse...

"O Ocidente quando impõe as suas políticas capitalistas e democráticas (ou pseudo-democráticas) aos restantes povos está a agredir os mesmos dado que está a fazer a imposição de uma vontade própria não olhando às reais pretensões dos mesmos"

E então o Oriente?
A China não tem restrições á liberdade de imprensa? como se notou nos ultimos Jogos OLimpicos?
Toda a China é uma violação dos direitos humanos.
E os povos islamicos não violam os direitos das mulheres? do mercado? das pessoas?

Acho que a cultura deles não se adequa com a nossa. Daí que estejam errados. E não nós que vivemos numa sociedade livre, aberta, em que podemos dizer o que pensamos e constituir grupos para participarmos nos actos eleitorais.
São os povos do Oriente nomeadamente a China e alguns povos islamicos quem se está a afastar e a impor regras diferentes daquelas que são os valores normais e aceites no Século XXI...

Penso que não estamos sozinhos pois Europa, EUA e alguns paises da América Sul ainda são suficientes para combater com a China e alguns países islamicos.

Marta Sousa disse...

Sem dúvida que a participação dos EUA na II Guerra Mundial foi determinante assim como na Guerra Fria. Questiono até que ponto é que o capitalismo selvagem é melhor sistema político que o comunismo. O que os Estados Unidos têm vindo a fazer é um crescimento económico baseado na dívida como deves saber. A isso eu chamo capitalismo selvagem. Quanto à luta contra os Talibãs acho que é importante ter uma visão relativista sobre este tema. Temos a estúpida concepção que num conflito num lado estão os bons e no outro estão os maus. Que legitimidade tem um Estado de guerrear com outro para impor um sistema político diferente? Quem fez o 25 de Abril? Foram os americanos ou fomos nós portugueses?

Quanto à China concordo perfeitamente com o que dizes. Já quando a falas dos povos islâmicos acho que devemos tentar encontrar um equilíbrio entre aquilo que é a cultura desse mesmo povo e os direitos das mulheres.

Só pelo facto da cultura deles não se adequar à nossa não significa que eles estejam errados. E meu caro, nós estamos muito longe de viver numa sociedade livre, a democracia como está implementada não é o sistema político ideal. Chamamos liberdade política ao acto de colocar uma cruz num voto?

Se a China e os países islâmicos estão a impor regras diferentes devemos atacar os mesmos só porque sim? Achas que o ódio dos países islâmicos ao ocidente é só "porque sim"? Da mesma forma chamas liberdade ao facto de no "estandarte da democracia mundial" haver apenas 3 partidos, 1 dos quais com uma representatividade diminuta? Chamas a isso liberdade?

Quantas pessoas morreram de ataques terroristas nos EUA 2001? Quantas pessoa morrem engasgadas com amendoins no mesmo país no mesmo ano? Certamente mais morreram engasgadas com amendoins. Será que os EUA fazem as suas políticas sem segundas intenções? São os salvadores do mundo tal qual o Super Homem?

Francisco Castelo Branco disse...

Começo pelo fim

" São os salvadores do mundo tal qual o Super Homem?" -
Não são os salvadores do Mundo.
Mas tb não são tão maus como os fazem pintar.
Acho que devemos muito aos Americanos.

Não somos nós que atacamos o Islão.
Mas o contrário.
O 11 de Setembro foi uma guerra declarada do Islão contra o Ocidente. E isso está no Corão. Eu, tu e qualquer pessoa que escreve neste blogue, que acredita na democracia é infiel.
E isso não pode ser tolerado nem aceite. E deve ser combatido. Pela via diplomática ou pelas armas.

Colocar uma cruz num voto é liberdade politica sim.
Estamos a escolher quem nós queremos para nos representar.
E podem concorrer todos : Capitalistas, comunistas, extremistas, seja o que for.
Vivemos numa sociedade livre em que nada nos imposto.
E essa liberdade advém do voto.
Mas como é natural, quem tem mais ganha....

Nenhum Estado tem legitimidade para impor um sistema politico diferente noutro. Concordo.
E nenhuma religião tem o direito de impor os seus valores a outros. Nem de nos declarar como "Infieis".

Quanto ás diferenças entre o Capitalismo e o comunismo.
São diferentes visões.
Aqueles que acreditam numa sociedade de mercado, sem regulação, mais livre, em que são os privados a decidir, em que haja concorrência, como eu que acredito nesse modelo, vão votar sempre em que lhes der essa possibilidade.

Agora, tens a experiencia de países comunistas como Coreia do Norte e Cuba (já lá estive e sei como as pessoas vivem...); em que ha pouca liberdade.

Mas isso são opções politicas e cada um tem as suas

Rafeiro Perfumado disse...

Como todos os Impérios, o dos EUA e da Europa terá o seu fim, assim como posteriormente o da China, India e afins. O que me preocupa é viver exactamente no período de turbulência que caracteriza essas passagens, o que não faz antever uma vida nada tranquila.

Marta Sousa disse...

Não fomos nós que atacamos o Islão? Queres maior ataque que colonizar um território durante décadas como fizeram os franceses e ingleses? E como estão agora a fazer os americanos no Iraque por exemplo!

Eu já tive oportunidade de ler o coorão e digo em primeira mão que nada disso está lá escrito. Meia dúzia de radicais é que interpretam dessa forma. Após anos de exploração por parte dos ocidentais das terras islâmicas é natural que essas mesmas terras não tivessem oportunidade de se desenvolver a todos os níveis. Se não se desenvolvem as situações de pessoas com dificuldades aumentam. Pessoas com dificuldades de todo o tipo pouco têm já a perder na vida e são facilmente influenciadas por ideologias radicais. No desespero (e isto está provado) a vontade é morrer mas levando uns quantos atrás. Só assim se explica as quantidades de Homens-bomba que todos os dias se fazem explodir.

"Colocar uma cruz num voto é liberdade politica sim." E até que ponto é que é participação activa democrática? A democracia só existiu na Grécia antiga em algumas cidades. O que assistimos hoje não é nem de perto nem de longe democracia. Nós não exercemos o poder, o poder não é do povo. O poder é delegado nuns quantos representantes que na realidade não conhecemos!

"Aqueles que acreditam numa sociedade de mercado, sem regulação, mais livre, em que são os privados a decidir, em que haja concorrência, como eu que acredito nesse modelo, vão votar sempre em que lhes der essa possibilidade."
Deves ser apoiante do Pedro Paços Coelho ehehehehe. Foi esse o discurso que lhe manchou a reputação. Vemos bem o que a economia livre tem feito. Numa palavra economia livre = crise.

Eu sou absolutamente contra o comunismo. Já partilhei de alguns ideias no que toca ao ponto de vista social mas cheguei à conclusão que o comunismo estagnou. Sou totalmente contra o sistema político de Cuba e da Coreia do Norte e digo que me sinto envergonhada por um partido que tem alguma representatividade em Portugal como é o PCP não condenar abertamente esses mesmos sistemas políticos especialmente o norte-coreano.

Francisco Castelo Branco disse...

Nós podemos não exercer o poder, mas somos nos que escolhemos quem exerce.

Os EUA quiseram matar um ditador no Iraque : Sadaam Hussein e utilizaram a conversa das armas de destruiçao massiva como pretexto.

E a China? E a Russia? querem fazer o que com o Ocidente? Daqui a uns estamos a comer com pauzinhos....

E sim, sou sem duvida apoiante de Passos Coelho

expressodalinha disse...

Concordo basicamente com o texto muito bem estruturado e com a matéria muito bem explicada, embora pouco conclusivo. Esperemos pela parte III. Concordo também com o Rafeiro Perfumado. Só não sei como vai ser esse virar civilizacional e se vale a pena ou não participar dele. Os jovens vão ter problemas. Eu, talvez ainda me safe, morrendo primeiro (grande safa...)

Francisco Castelo Branco disse...

Mas temos que ter algum modelo.
Não podemos viver na obscuridade, ou seja sem um modelo definido.


Acredito que o Capitalismo (não o selvagem....) seja o melhor.

E, Marta, a crise foi gerada e iniciada em países com Modelos Socialista. Por exemplo a Inglaterra e Espanha.
Nestes dois países onde impera governos socialistas, em que o Estado mantêm os dois olhos sobre o Sistema; a taxa de desemprego é enorme. Em Inglaterra a crise deu o seu inicio. E Espanha tem uma das taxas mais altas de desemprego.

E nas recentes eleições europeias os governos ditos de Direita sobreviveram.

Portanto, não penso que a economia livre seja igual a crise.

A economia livre permite desenvolvimento, modernidade e prosperidade. Foi com esse propósito que aderimos á UE!

Agora, como todos os sistemas têm falhas....

Francisco Castelo Branco disse...

Expressodalinha

Uma provocação :

Os jovens vão ter problemas pelos erros ( e foram muitos...) que os mais velhos cometeram...

É como construir o TGV e ser as gerações futuras a pagar....

expressodalinha disse...

O país está em dívidas desde o Afonso Henriques e sempre se safou. TGV é mais uma falsa questão.

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