domingo, 24 de maio de 2009

OLHAR A SEMANA - VALORES

Durante anos não me preocupei nada com os valores sociais ou com a falta deles. Mais, essa história dos “valores” cheirava a mofo de sacristia ou a política serôdia de direita passadista. Mesmo perante a insistência dos telejornais onde os assaltos, raptos, pedofilia, assassínio e corrupção parecem ser as únicas coisas que acontecem, mantive-me empedernido. Valores? O que é isso? Querem é montar uma nova ditadura e mandar-nos todos para a catequese!
A verdade é que eu dou por adquiridos esses valores. Eles fazem parte do meu “acquis” cultural e de personalidade. Recebi-os dos meus pais e passei-os aos meus filhos de forma natural. Sem qualquer esforço. Sem necessidade de que qualquer entidade os mediasse. Sem reparar. Mas será assim com toda a gente? Porque temos a sensação de voltar a viver num mundo novamente inseguro, a resvalar para a barbárie? Que se passou nos últimos 20 anos? Que se vai passar com o agravar da crise económica e social?
Olhamos à nossa volta e temos uma renovada sensação de Idade Média, em que os bairros sociais, bem demarcados e isolados, lembram as antigas mourarias e judiarias. Em que os condomínios fechados são verdadeiros castelos medievais, com torres e ameias intransponíveis e bem guardadas.
A má política de integração e assimilação das migrações, quer na Europa, quer nos USA, acabará por gerar um xenofobismo e racismo incontroláveis. O perigo de rearmamento e de confrontação militar surge a propósito de novos problemas: o acesso à água; as alterações climáticas; as energias; a fome que cada vez está mais a norte…
Os políticos dizem exactamente o que o eleitorado quer ouvir e o eleitorado quer ouvir exactamente o que os políticos dizem Estão bem uns para os outros. Vivemos todos muito contentes nesta mediocridade de avestruz. Vivemos a mentira institucionalizada. É a competição para prometer mais. Ninguém vai para a política para perder eleições. As elites são fracas, pouco corajosas e cada vez estão mais distantes do poder.
Vivemos no reino do “Estado Espectáculo” que rapidamente vira comédia. Nós, somos o “Idiota Feliz”. O cidadão que consome e vai ao circo. Só se revolta quando não tem dinheiro. Não percebemos que os valores não são cifrões.
Onde estão, então, os valores? Para mim que estou entre o ateu e o agnóstico, num limbo social diletante, esses valores são o tal “acquis”. Sedimentação de muitas gerações. Não preciso da religião para me “portar bem”. Basta-me a Lei e o Civismo. Mas bastará a toda a gente? Temo que não. Temo que voltaremos, tal como na Idade Média, a precisar dos Códigos de Conduta implícitos em todas as religiões para não voltar a cair na barbárie. Temo que vamos ter de voltar à catequese!
Jorge Pinheiro

1 comentário:

Francisco Castelo Branco disse...

Grande parte dessa falta de valores tem a ver com a maior liberdade, igualdade, independência que se vive sobretudo nas gerações mais jovens como a minha.

Vivemos numa sociedade em que "vale tudo" e não há respeito nem consideração sobretudo por esses valores.

Os valores têm-se perdido porque também vivemos numa sociedade egoista e egocêntrica. Em que o culto do EU prevalece sobre o altruísmo.....

Mas o bom exemplo podia vir de cima. Mas não!
Os politicos ( e mais uma vez os politicos..) cada vez mais se insultam, degridem a imagem dos seus adversários em publico. Também é a força do vale tudo.
Ainda hoje o nosso PM disse que Ferreira Leite tinha "falta de jeito para politica".....
Aqui está um bom exemplo de como nãp há respeito nem valores...

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