quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Papel de Portugal na Europa

Quando se apresentou o projecto de entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia, as vozes dividiram-se entre o sim e o não. As questões fracturantes dividiam-se entre a economia nacional e os aspectos ideológicos de cada grupo partidário. Enquanto os primeiros afirmavam a importância de Portugal entrar no comboio europeu, para modernizar o tecido económico, os segundos dividiam-se entre aqueles que temiam a infiltração dos chamados capitais estrangeiros e os que falavam na iminência do final da cultura portuguesa, definida no seu espaço próprio.

O grupo dos segundos esquecia-se da inevitável gestão de dependências que Jean Monet invocara duas décadas antes e que prevalecia como mote da integração europeia, entre potências ainda há pouco metrópoles de impérios coloniais. O que prevalecia para Portugal era a gestão dessas teias de dependência que nos ligavam ao mundo e ao mercado económico europeu; era, então, essa constante que guiava a escolha pela integração no projecto europeu.

Outra dicotomia, esta apresentada por Agostinho da Silva, colocava-se desta forma: seria Portugal que precisava da Europa ou seria a Europa que precisava de Portugal? Ao longo de todo o processo integrativo, a empírica tem-nos demonstrado que o primeiro pressuposto se sobrepôs ao segundo, visto que tanto os fundos estruturais como as constantes reformas sistémicas e do acesso a uma vida mais citadina e com maiores oportunidades, num regime capitalista, homogeneizante e de tendência liberal e anti-personalista, se impuseram em Portugal. Durante toda a dinâmica, as instituições democráticas e os grupos apoderaram-se de um acervo europeizante, ao que lhe podemos incluir a continuada caça aos fundos estruturais, a bruxelização dos partidos portugueses com a supranacionalização das suas estruturas representativas no Parlamento Europeu, o arranque dos new deals cavaquista e guterrista com a proliferação de clientelas tanto agregadas às obras públicas e às encomendas de estudos aos “amigalhaços” e “gajos porreiros” das empresas de consultadoria e advogados.

O que continua a faltar neste processo é um Portugal que seja a voz dos povos oprimidos da Europa, dos pequenos Estados, na criação de um G20 europeu contra o directório das grandes potências que continuam a comandar as hostes. Portugal tem de ser o comandante de um movimento que humanize a política e a economia, como diria o ex-eurodeputado Francisco Lucas Pires; pois, quando fomos capital de um império já éramos colónia e passámos a entender os mundos do Norte e do Sul. Tentemos uma Europa que se portugalize no melhor que temos, que é a própria natureza do português que é a do fazer-saber, sabendo fazer, com uma sociedade comunitarista, de partilha na justiça.

Bruno Gonçalves Bernardes, Lisboa, 9 de Maio de 2009

11 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

1-

Portugal liderar os países com menos capacidades no G20? Ah pois. É uma boa ideia. Mas nem com uma presidente na Comissão Europeia conseguimos ser chamados.
Isso é simbólico. Não só a nivel europeu estamos a ser ultrapassados. Como a nivel mundial.
E isso é que é preocupante

2- Portugal precisa da Europa e muito.
Acho que somos um país que depende quase 90% da Europa. Daí que temos de reforçar o nosso sistema interna e não dar prevalência ao Parlamento Europeu, isto é, temos de lutar para que as nossas leis sejam superiores ao Direito Internacional, daí que uma Europa Federal para Portugal seria catastrófico, já que iriamos estar sob uma legislação "alema" ou "francesa"

expressodalinha disse...

É lá!!! Isso é que não. As leis alemãs são perigosíssimas. Ainda nos põem a trabalhar! Aliás, o que serão as Directivas senão uma emanação dessa vontade do eixo França-Germânia? Os portugueses nunca gostaram de trabalhar. Sempre que lhes dão a possibilidade de ter coisas de graça aproveitam para esbanjar. É genético. Nada a fazer.Por isso sou federalista. Para não passar a vergonha de ir à falência e para poder continuar a usufruir dos fundos ou seja do que fôr. Se para isso tiver de largar mais soberania que se lixe. Nós nem sabemos para que queremos a soberania. Quanto a liderar seja o que fôr, lamento mas é pura utopia. Os "Heróis do Mar" já tinham morrido há muitos séculos quando se lhes fez o hino que, aliás, mais não é do que um epitáfio!

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

Então e porque é que não vamos lá para fora ensinar que trabalhar faz mal? Que o que interessa é aliar-nos ao que os japoneses e alemães gostam de fazer, que é trabalhar e criar tecnologia, e nós, com a tecnologia ao serviço de todos, tenderiamos a deixar de trabalhar, para passar a contemplar a paisagem. Se conseguíssemos isso, talvez surgissem ideias bem mais criativas e imaginativas, pois não se sabe o que pode esperar de alguém que se está contemplando a ele mesmo, feliz da vida, sem ser um robot de uma qualquer engrenagem.

Francisco Castelo Branco disse...

expressodalinha

Mas não é o federalismo que vai mudar a "mente" dos portugueses.

O que nos serve ter um Presidente da Comissão Europeia quando, Nem ao g20 somos convocados...?

Com o federalismo ainda vamos ser mais pequenos.....

E com o federalismo não há direitos iguais para todos.

Outra coisa que me faz confusão, é estar a votar em partidos para o PE, quando estes depois dividem-se não em nacionalidades mas em grupos politicos europeus. E como é normal os nossos ficam lá para trás em Estrasbourgo.

BRuno

O facto de não conseguirmos nem sequer sermos lideres dos "pequenos paises" tem a ver com o facto de não termos politicos suficientemente bons! e com nivel...

expressodalinha disse...

Francisco: mas a minha ideia não é mudar. É não ir à falência! Ou julgas que somos alguém?

Francisco Castelo Branco disse...

expressodalinha

eu acho que cada vez somos menos.

É esse o principal problema
Nem com um Presidente da Comissão Europeia.

Ok. Então se percebo, Europa Federal para não perdermos ajudas e apoio? Sob esse ponto de vista concordo.

Mas continuo a achar que devemos continuar a lutar pela nossa posição.
E nesse aspecto concordo com o Bruno.
De resto o texto dele está muito virado ( e muito bem..) para as qualidades do nosso pais e para a exaltação nacional

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

A questão da falência está também ligada às vacas gordas dos dinheiros estruturais. A questão é que a nossa dívida externa diária ultrapassa qualquer dinheiro que nos possam enviar, o que apenas vai tapando buracos ou adiando o fim das clientelas que giram em torno do Estado e dos partidos. Não existe uma consciência para a libertação das instituições e das empresas face ao Estado, mesmo com as tentativas medíocres de descentralizar serviços ou com as privatizações que se fizeram. Portugal já era colónia quando ainda éramos capital e um império, pois a grande questão nacional é primeiro a gestão das dependências e não esse federalismo que a nós não nos serve por sermos primeiro que tudo um dos raros casos de Estado-Nação na Europa (por isso não vale enganarmo-nos ao comprar modelos de outros); segundo uma boa base de educação e formação (e outra vez não digo a instrução que importámos dos franceses, mas a que deve criar pessoas conscientes de si e do seu bem-estar psicosocial); terceiro o fomento da saída dos portugueses que quisessem partir, para que eles possam viver o mundo, ensinando aos outros o humanismo do português, para quebrar com esta economia (que eu acho ser a melhor), mas que precisa de um modelo de redistribuição e de sentido de liberdade e humanidade. Todos os povos são sensíveis a isto, por isso é que falei no tal G20 europeu contra os desígnios das grandes potências no jogo de soberanias da UE. E depois ainda nos querem vender o federalismo; e nós compramos, pois, nem que seja para dizer que estamos a salvar a economia nacional. O problema é que salvamos "esta" economia, que é a que está centralizada no Estado, que não deixa ninguém respirar e que alimenta as clientelas do costume.

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

É sempre bom podermos ter estas bases tecnológicas de debate. Bem hajam!

Francisco Castelo Branco disse...

Se nos compramos o federalismo é porque nao acreditamos em nós próprios

O federalismo pode ser uma salvacao ou um desastre. Depende claro do ponto de vista.

Mas penso que isso nunca vai acontecer. Ate porque a Europa vai sempre angariar novos membros.

Caminhamos sim para uma supremacia da legislacao europeia sobre a nacional
E de um reforco do Parlamento Europeu

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

O problema nem é bem a legislação ser europeia. O problema é se persistirem aqueles senhores que pensam ter o dom da supremacia moral que continuam diariamente a proferir e a estabelecer leis para tudo, até para a nossa privacidade. Se inventámos o Estado foi para nos livrarmos dos tiranos. A soberania pode ser já uma página já poeirenta, e os Estados podem, no quadro europeu, já nem corresponderem àquele que os clássicos teorizaram, portanto não me importo nada que seja o supranacional ou o que se quiser chamar, que tome conta do legislar; o que importa é que saibamos antecipar o futuro, para continuarmos infinitamente a fazer parte dele.
Quanto ao Parlamento Europeu, ainda acredito que um reforço formal e real das suas capacidades, possa ser um factor de reforço da liberdade individual, mas não pode ser o único.

Francisco Castelo Branco disse...

Sim concordo

Cada vez menos temos "privacidade".
Essa é uma das vitórias do Terrorismo e do 11 de Setembro

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