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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O livro, o cartaz e outros que tais...

Ele há coisas que me incomodam, que por muito que tente, não me entram na cabeça. Ora, a 10 de Junho de 1819 nascia em França Gustave Courbet, pintor realista que algures numa fase da sua vida enveredou pelo tema do erotismo. Curiosamente, no Portugalinho à beira-mar plantado em pleno 2009, apareceu, numa Feira do Livro, um volume que na capa exibia uma obra desta pintor, no período supracitado. Um escândalo, um horror. O Zezinho viu e chamou o Joãozinho que por sua vez chamou o Luisinho, que depois chamou o Andrézinho que, no auge da euforia infantil, deixou que os pais percebessem o motivo de tanto alarido. E ora que sem mais, levanta-se a defesa da moral e dos bons costumes, e os pais da criançada decidem chamar a polícia. E a polícia, à cautela e preventivamente, segundo declarações de Henrique Almeida (segundo comandante da PSP), procedeu à apreensão dos livros referidos.
Eu gostava realmente de ter a capacidade de comentar isto, sem bater nas teclas da liberdade de expressão, da falta de cultura artística e do conceito de “pornografia” de algumas pessoas. Também gostava de não ter que referir as mentes poluídas que abundam neste país. E, principalmente, gostava que não me cheirasse a censura diariamente. Gostava que a “caneta azul” não me andasse a ensombrar os sonhos (pesadelos?) nos últimos dias. Isto era o que eu gostava. Mas eu também gostava que me saísse o euromilhões. Também gostava que o Sporting hoje ganhasse ao Bayern. Enfim… Sonhar não custa.
E afinal Gustave Courbert é uma desculpa tão boa como qualquer outra. Tão boa como o cartaz do Sócrates vs. Pinócrates. Tão boa como muitos acontecimentos recentes no nosso país. Uma pessoa sente-se castrada. E começa o medo que o vizinho ouça e seja um bufo e que, amanhã, a PVDE mascarada com outro qualquer nome mais pomposo e mais à esquerda (cof, cof, ironias à parte) nos venha buscar para nos torturar até à loucura. Mas isto sou eu. Talvez só e apenas eu.

14 comentários:

Eduardo P.L disse...

Mais uma piada, de mau gosto.
Lamentavel.

Ferreira-Pinto disse...

Apre que eu já aqui chego cansado, pois tenho por aí andado a esclarecer que o homem (o senhor agente da PSP) achou por bem levar a donzela à esteticista para uma depilação, pois vem aí o Verão.
Mais nada :)

Francisco Castelo Branco disse...

E a questão do Magalhaes no Carnaval de Torres Vedras.
Ainda temos que aprender em matéria de liberdade de expressão.
E mais, ha que abrir as mentes conservadoras deste país, que ainda mal se soltou da ditadura e dos bons costumes
Tambem aqui se ve o nosso atraso

Jorge disse...

O que fica em relevo em todos estes casos é o pequeno caminho que percorremos desde o 25 de Abril. Começo a perguntar-me se o português não será como o escorpião e a tacanhez de espírito não está na sua natureza.

expressodalinha disse...

Começa a haver muitos tiques censórios. Aliás, eu acho que o país anda neuro-depressivo e um pouco esquizofrénico. Quanto ao Sporting ganhar, parece-me o mais fácil...

Francisco Castelo Branco disse...

Muitos tiques censórios e uma mentalidade que parece querer voltar aos anos 59, 60....

Este país tem que se livrar das atitudes conservadores e andar para a frente.
Também aqui estamos na cauda da europa...

Francisco Castelo Branco disse...

Não acho que aqui no caso do livro haja falta de bom senso na liberdade de expressao. Em relação ao cartaz penso que sim, mas isso ja foi abordado

Rafeiro Perfumado disse...

Cheira a antigo regime, sem dúvida. Basta ver o que tentaram fazer com a sátira ao Magalhães no Carnaval de Torres.

Abraço e viva a liberdade de expressão!

Paula F. disse...

Concordo plenamente com a perplexidade e com a repulsa que nos pode causar qualquer tipo de censura, ou não fossemos nós testemunhas dos efeitos da mesma, num passado ainda muito recente.
Se fosse só Portugal... Já não se lembram do caso do jornal dinamarquês "Jyllands Posten" e dos seus cartoons censurados mundialmente? E o que aconteceu no Carnaval de 2008, com um carro alegórico alusivo ao holocausto nazi, no Brasil? E nos EUA, quantos exemplos se podem referir? E em França? Não é Portugal... É o Homem. Intolerante por natureza. Conservador. Sempre pelo status quo. Tenho esperança que Portugal e o mundo evoluam em termos de mentalidade, com as próximas gerações e com o desaparecimento dos 'velhos do restelo'.
Mas, por favor, não sejam tão severos na crítica ao nosso país. Não minimizem Portugal perante os outros. Somos muito mais tolerantes do que os franceses, os americanos, etc.

Francisco Castelo Branco disse...

Paula F

Nao concordo com a parte em que "afirma" que o Homem é intolerante por natureza e conservador.
Acho que em Portugal não se trata do Homem mas dos bons costumes e da falta de abertura do país ao exterior e a novas mentalidades.

E isso tem-se verificado muito no consulado de Socrates enquanto PM. Multiplos sao os casos em que a liberdade de expressao é cortada. e reprimida.

Paula F. disse...

Não sei se o Francisco alguma vez leu 'O senhor das Moscas' - também existe o filme para quem não é fã de letras (e até é muito bom). É um excelente documento antropológico e social (com a mais valia de ser uma história muito interessante e envolvente) que aconselho vivamente, especialmente aos que acharem que 'somos por naturezas bons' ou tolerantes ou qualquer outra coisa de jeito.
A natureza humana não é propriamente altruísta e a tendência para a intolerância com a diferença é muito generalizada.
Gosto de me considerar bastante tolerante e conheço outras pessoas que também o são, mas sei que a maior parte não o é. Isso pode verificar-se na análise do comportamento de qualquer minoria (que, por ser vítima das intolerâncias dos outros, deveria ser tolerante, mas não é assim - nem com os outros nem sequer com os seus 'semelhantes').
Adoro o Principezinho... Mas a vida não é uma fábula de bondade. Antes pelo contrário, está muito mais próxima de uma história surrealista de Boris Vian ou da alegoria algo macabra de William Golding (autor de 'O Senhor das Moscas').
Mas os intolerantes não vivem todos em Portugal, isso é garantido. E, no meio da muita tacanhez que por cá pulula, ainda somos capazes de tentar 'deixar viver'.
O grande mal - como no caso do livro que exibia o tal quadro - é quando um intolerante/tacanho abre a boca e todos os outros se sentem envolvidos na euforia de não estarem sós nas suas dores e ofensas. E não deve haver muita coisa pior que os 'rebanhos' e os seus gritos em uníssono ou as suas atitudes pseudo-corajosas (que, na verdade, só se devem a esse tal sentimento de colectividade - essas pessoas nunca teriam coragem para atacar a imagem da capa do livro se ninguém lhes secundasse o ar ofendido).

Francisco Castelo Branco disse...

Paula F

penso que uma visão um bocado "má" da sociedade em que vivemos.
As sociedades são feitas de pessoas boas e mas, como em tudo na vida.
Não tenho essa visão, acredito que ha pessoas que o tenham. Até porque podemos fazer parte dela.
Mas isso já foi abordado neste blogue.
E as opinioes, como tudo, dividiram-se
Acredito mesmo que aqueles que são os ditos "maus", estão em minoria. Mas isso é a minha visão.
Mas acho que esta questão nao tem nada a ver com o que está escrito no post.
Mas sim a liberdade de expressão

Paula F. disse...

Tem razão, não é exactamente o mesmo tema, apenas um será consequência do outro. Mas pela liberdade de expressão temos também que permitir que se manifestem as pessoas que são contra a presença da obra numa feira do livro.

Que pena nunca ter tropeçado com essa discussão sobre a bondade e a maldade inerente ao ser humano. Mas não posso estar sempre a reavivar as vossas discussões antigas, só porque não participei na devida altura. Seria extremamente injusto para si.

Francisco Castelo Branco disse...

Paula F

Se quiser fazer um texto com a sua visão, gostava muito.
O tema pode ser reaberto atraves d uma visão diferente.
Faço-lhe este convite

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