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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Filhos e Enteados (ou como os enfermeiros continuam esquecidos por todos...)

Hoje via o mais recente programa da Maria Elisa, na RTP1, onde se falava sobre o importante papel dos médicos na cura das doenças neurológicas e, mais tarde, se versava sobre o papel das equipas multidisciplinares no acompanhamento ao doente com patologias degenerativas. A representante de uma associação falava então da importância de terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e psicólogos. Enfermeiros? Pois, parece que esta senhora não os considerou importantes, assim como a grande maioria dos convidados presentes no programa. Inclusive Maria Elisa, que se sabe ter fibromialgia, não tocou sequer na questão da importância desta classe profissional.
Parece-me abjecto. Parece-me que a nossa sociedade continua impregnada com ideias curativas desprezando continuamente o conceito do cuidar. E eu gostava de saber quem é que se cura sem ser cuidado. Há ainda outras coisas que gostava de saber como, por exemplo, qual seria o acompanhamento dos doentes internados se os enfermeiros não existissem, qual a taxa de sucesso em termos de altas com curas efectivas, qual o grau de satisfação das famílias dos doentes internados???… Enfim, uma panóplia de questões. E, para falar a verdade, até “me doeu o fígado” quando começou toda a gente a debater a questão do cansaço dos cuidadores informais (alguém que sem ser profissional de saúde cuida a tempo inteiro, em contexto de ambulatório, de uma pessoa doente ou gravemente limitada em termos físicos /mentais). O cansaço dos cuidadores informais sempre foi uma prioridade da enfermagem, ou alguém acredita que são os médicos que fazem ensinos a estes familiares, que realizam as higienes dos doentes, que auxiliam as famílias? Serão porventura os psicólogos que se deslocam a casa destas pessoas e lhes prestam apoio emocional, analisando as suas condições psicológicas e criando planos de cuidados adequados a cada um? Quantos fisioterapeutas fazem parte das equipas de gestão de alta hospitalares? Alguém acredita numa rede de cuidados continuados sem enfermeiros? Melhor ainda, há por ai alguém que acredite em saúde sem a figura do enfermeiro?
E desculpem se pareço amargurada mas custa-me este descrédito, este desprezo, esta falta de reconhecimento a que a classe dos enfermeiros é sujeita no nosso país. Por alguma coisa nos Estados Unidos se recrutam enfermeiros portugueses e os seus serviços são pagos com salários altíssimos. Enfim, santos da casa nunca fizeram milagres…
(Ressalvo aqui o meu total respeito e reconhecimento por todas as profissões que enumerei neste texto. Sem médicos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e psicólogos, certamente os enfermeiros também não fariam grande coisa, ou talvez coisa nenhuma, A questão é só que… Cansa reconhecer e nunca ser reconhecido!)

10 comentários:

yargo disse...

Deu-me vontade de mandar isto como artigo para um jornal!
E custa-me ver a luta de uns bananas que já ninguém pode ouvir (professores, está claro!) enquanto as nossas condições são bem piores. Ninguém nos dá voz e ninguém nos quer ouvir.
Gostava de ver como iria funcionar um hospital sem enfermeiros, um centro de saúde sem enfermeiros... Gostava mesmo de ver uma luta comum não só nossa, mas da população em geral pelos seus direitos e pelos nossos direitos.
o desânimo é geral e a emigração é o futuro. Portugal como será sem enfermeiros?
Os enfermeiros portugueses são os enfermeiros do desenrasque, vai-se lá saber porquê!

PS: Posso colocar este texto no meu blog?! Está muito bom!

Bruno Fehr disse...

Eu concordo, deveriam calar-se com os professores que temem/duvidam da avaliação e prestar um pouco de atenção ao trabalho dos enfermeiros, por um lado porque os hospitais sem eles nao funcionam e passariam a ser morgues, segundo porque sao testados diariamente.

yargo disse...

Somos mal pagos (licenciados não remunerados como tal), trabalhamos muito com horários lixados 40h semanais por turnos e turnos extra), puxamos pelo físico e somos afectados psicologicamente. Dormimos mal...
Não podemos ficar doentes...
Fazemos imensa burocracia... E a nossa avaliação de desempenho é um projecto e a sua implementação durante 3 anos com monitoziração no nosso serviço...
Bem, os professores estão mal estão! Tadiiiinhos!

Daniel Silva disse...

Aprecio muito os enfermeiros também. Num grau diferente faço um paralelismo com os professores da primaria que são/dão as bases para todo o conhecimento posterior e cuja transmissao de conhecimentos vai definir (quase) tudo o resto.

Um enfermerio para mim é uma profissao muito bobre, sem demerito de nenhuuma outra profissão claro... mas os medicos ou fisioterapeutas, por ex, sao apenas tecncios, e nos enfermeiros existe tambem muito a componente humana ja que nao estao para fazer diagnosticos nem dar resultados...

Francisco Castelo Branco disse...

Sol

mas o que é que falta?
Melhores salarios? condiçoes?
Sindicatos?
melhor representação?

Sol disse...

Yargo: Sim, coloca o texto, acho que nos devemos unir em redor desta causa e infelizmente isso nem sempre acontece! Realmente eu às vezes penso que as pessoas "lá fora" não têm noção do que passa quem está 24h sob 24h horas com os doentes! Não têm noção do desgaste físico, do desgaste psicológico, da pressão que enfrentamos quando passamos noites sozinhos nas enfermarias com doentes no fio da navalha... Não têm noção da dificuldade da licenciatura, do quão trabalhosa é, e depois somos pagos como tudo menos como licenciados... Já para nem entrar pela exploração de horas sem fim, pela exploração que acontece no combate às listas de espera em que os enfermeiros simplesmente não são pagos, ou pela precariedade dos recibos verdes e contratos que só dão vontade de chorar...

Bruno: Os professores souberam fazer o que nós não conseguimos! Uniram-se em torno de uma causa e vão acabar por conseguirem o que querem. Nós deviamos era meter os olhos neles, até porque os nossos protestos são bem mais legítimos...

Daniel: O grande problema é que essa parte humana que é talvez a mais importante de todas, não pode ser medida, não produz resultados mensuráveis (dizem eles) que possam ser passados para listas e propagandeados em anos de eleições...

Francisco: Sindicatos nós temos. Os salários são uma anedota, uma vez que os enfermeiros continuam a receber como não licenciados, quando muito já são mestrados e doutorados (só que isso em carreira hospitalar não conta). As condições prefiro nem comentar, horas semanais sem fim, tudo no regime do recibo verde ou do contrato que é a verdadeira exploração...

Basicamente falta tudo. Inclusive que a sociedade olhe para nós com a importância que realmente temos!

Mikas disse...

E tens toda a razão!! E quantas vezes os enfermeiros têm que "substituir" os médicos, preocupando-se com a evolução dos pacientes, e dando atenção. Bijous

expressodalinha disse...

Passei a respeitar os enfermeiros ainda mais desde que o meu pai de 87 anos tem estado internado. É uma profissão extraordinária de entrega, de reponsabilidade e de conhecimento, Acrescem as qualidades humanas que têm de ser fora do comum. Um(a) enfermeiro(a) é de facto como um anjo da guarda. Se as condições e os salários não correspondem ao job-description deviam reivindicar mais. Todo o meu apoio!

Francisco Castelo Branco disse...

Penso que até que os enfermeiros são mais importantes do que os médicos em termos de apoio moral.

Fia disse...

Sol, como não podia deixar de ser faço minhas as tuas palavras.

Ás vezes já nem acho estranho que exista alguma falta de conhecimento daqueles que não estão tão próximos das situações...
Agora, num programa de televisão vêm falar em equipas multidisciplinares e nem sequer mencionam o papel importante dos enfermeiros?
Sinceramente...

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