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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Que educação é esta?

A situação a que chegou a educação em Portugal deve deixar muitos perplexos. As últimas semanas têm sido de grande instabilidade e, certamente, custará a muitos compreender o que está e tem estado em discussão.

Será difícil encontrar quem em Portugal quem se sinta confortável com o actual sistema de ensino. Porém, e seguindo a vocação nacional, são mais os que procuram atribuir responsabilidades do que aqueles que se preocupam em compreender o que de facto está a originar este clima.

Este foi o maior erro da actual ministra da educação. Como socióloga e tecnocrata, totalmente arredada da realidade das escolas, seguiu o caminho que lhe garantia mais apoio popular, mas não necessariamente o correcto. Não avaliou (e isto é caricato quando tanto se fala de avaliação) nenhuma das medidas tomadas pelos seus predecessores, não ouviu professores, nem alunos. Chegou, decidiu e actuou, indiferente às consequências da sua atitude e ignorando as sistemáticas queixas que iam chegando à 5 de Outubro.

Há quem lhe chame corajosa. Há quem lhe chame reformista. Quem, como eu, aplica as suas ideias, convive diariamente com uma escola cada vez mais ineficaz, inútil e virada para o tratamento estatístico. Gostaria de dizer que compreendo a necessidade da mudança. Nos meus doze anos como professor sei identificar alguns dos males que enfermam este sistema de ensino. Posso acrescentar, porém, que nenhum deles ficou resolvido com o Magalhães, com as aulas de substituição, com o inglês no 1º ciclo (que já existia apesar de toda a propaganda que diz o contrário) ou com as Novas Oportunidades.

Se assim é, pergunto então para que tudo isto serve. Não que não encontre vicissitudes, mas no geral nada traz de relevante para melhorar os resultados escolares. O que temos assistido é a um laxismo crescente, exemplificado nos magníficos exames nacionais. Não são sérios e nos moldes actuais para nada servem, uma vez que nada avaliam. Mais uma vez volto a destacar a ausência de uma avaliação credível.

Tenho obviamente aqui que focar outra das bandeiras do governo, essencial para que possamos todos compreender o âmago destas reformas. Como professor (ou formador, conforme o pedagogo de serviço) tive a oportunidade de trabalhar com estes novos cursos, quer ao nível do ensino básico, quer ao nível do ensino secundário. A perspectiva nem é má. Estou de acordo com a ideia geral que visa habilitar uma parte da população portuguesa que, por falta de vontade ou oportunidade, não completou os seus estudos no tempo devido. Discordo obviamente do modelo seguido.

Sei bem pela experiência que tive que o objectivo destes cursos é puramente estatístico. A Agência Nacional para a Qualificação, que pouco percebe do que realmente se passa no terreno, limita-se a exigir resultados. A qualquer dificuldade que apareça responde sempre que cabe aos formadores encontrar soluções, ainda que, muitas vezes, as dificuldades sejam inultrapassáveis (como o puro e simples abandono). Mas nada disto interessa. Tudo tem de prosseguir e no final todos têm de ter a sua certificação, independentemente da qualidade do trabalho apresentado. Uma das questões que tenho ouvido colocar é porque razão só agora os professores se manifestam. Percebo a pergunta, mas também percebo o que se torna implícito quando a colocam. Se só agora se queixam é porque estão a ser afectados nos seus interesses corporativos. Nada de mais errado. Desde a primeira hora o descontentamento tornou-se evidente. Logo no primeiro ano deste governo houve uma manifestação de 25 mil professores. E num feriado. Hoje, e perante as mega manifestações, parece pouco, mas foi na altura muito significativo. Além do mais, e se falarem com qualquer professor, esta luta não se resume a um modelo de avaliação. Envolve o estatuto da carreira docente, o estatuto do aluno (incompreensível, particularmente quando o que vigorava foi bem aceite por todos e era bem mais incisivo), o modelo das aulas de substituição (porque continua a vergonha de para nada servirem a não ser manter as crianças fechadas dentro de quatro paredes) e uma crescente burocratização do trabalho docente, mais uma vez incompreensível e inútil.

Claro que só agora o movimento de professores atingiu o seu auge. É agora que a maioria destas reformas se estão a fazer sentir. A avaliação proposta foi simplesmente a gota que fez transbordar o copo.

Não me vou alongar mais, mas gostaria de partilhar isto. Ontem recebi um mail de uma aluna do ensino secundário nocturno que o ano passado tive o prazer de ensinar. Dizia-me ela para explicar a desmotivação que sente que «este ano nas aulas de História têm slides, que escreve-se muito no quadro, que muitas fotocópias são distribuídas e que muito se usa as novas tecnologias. Nada está a funcionar, o ano passado não tínhamos nada disso e eram as aulas que eram...» Talvez sirva como paradigma de tudo o que esta avaliação acarreta. O bom professor (de acordo com o modelo proposto) é o que faz floreados, é o que usa as novas tecnologias, é o que muito diversifica, é o que se preocupa em mostrar serviço. E eu pergunto: mas ensina? Talvez não, mas isso nada importa, porque cumpriu todos os parâmetros necessários para se destacar no meio escolar. Muito mal vai um país que assim trata a sua educação.

P.S. – Muitas eram as questões que aqui podiam ser referidas e provavelmente de forma bem mais eloquente. Este é o texto possível de alguém que claramente está cansado e desiludido com todo este processo. Ainda assim espero que sirva para trazer alguma luz a quem procura compreender.

Texto de Jorge Marques autor do blogue http://www.pressadechegar.blogspot.com/

12 comentários:

expressodalinha disse...

Comparado com o que os alunos de agora sabem e o que eu e minha geração aprendemos, algo vai muito mal no reino da avaliação há muitos, muitos anos... E não havia avaliação, nem estas questões patéticas que já ninguém entende a não ser quem está envolvido na "guerra". Porque será?

Majo disse...

É perante situações como esta que dou graças ã Deus por não ter acabado o meu curso superior, cuja saída seria "dar aulas". Pelo menos no meu tempo e já lá vão quase 18 anos. Gosto de ensinar, ou melhor, de transmitir conhecimento mas não nos moldes de hoje. Ainda ensino, noutros moldes que não os da educação das escolas, mas parecido. Também tenho um plano de estudo a seguir, objectivos a atingir e liberdade para escolher o método de ensino, desde que apropriado ao meu público-alvo. Alunos de diversas faixas etárias. Também uso as novas tecnologias, mas tudo com conta, peso e medida.

Revi-me na aluna que disse que as aulas de História não eram as mesmas. Lembrou-me uma professora que tive, quando andei a estudar à noite para mudar de curso, já depois de ter frequentado a universidade. A professora de História. Disciplina que eu destestava. Ódio de estimação mesmo. Com esta professora, e sem qualquer tipo de tecnologia além do manual e da sua sabedoria, conseguiu que eu passasse a adorar as aulas delas e conseguiu que eu acabasse o ano com média de 17, apesar de ser trabalhadora-estudante e de pouco tempo ter para estudar. E até hoje lembro-me da matéria dada. E continuo a gostar de História.

Pensei o ano passado voltar a estudar. Mas muito sinceramente, perante o panorama actual do ensino... passou-me a vontade.

Francisco Castelo Branco disse...

Belo testemunho de quem lida com a educação todos os dias...

Obrigado pela participação

Retirei algumas coisas importantes do texto, mas que vou enunciando á medida que o debate se prolongue durante o dia...

A que nesta hora quero destacar é a questão das novas tecnologias.

Continuo sem perceber quais as vantagens do Magalhaes senão meter miudos á frente do computador em vez de brincarem no recreio, como se fazia antigamente....ainda dizem que as novas tecnologias não isolam as pessoas...

O ensino feito por projector, gráficos etc, é mau para a educação.

Habituam as pessoas a olhar para um pc em vez de olhar para o livro. Em vez de lerem...
QUere-se simplificar, em vez de exigir o máximo.....

É este o choque tecnológico?

E com que resultados?

Jorge disse...

O maior problema é que os miúdos reagem à novidade. Passado pouco tempo a tecnologia já pouco interessa. Assim é com os quadros interactivos... um investimento brutal que pouco acrescenta em grande parte das áreas. É giro, mas com toda a franqueza mais valia ter um aquecedor na sala de aula. Era bem mais necessário. A única diferença é que o aquecedor não dá votos.

Hoje como ontem o professor é bem mais importante que a tecnologia. E sim, as tecnologias distraiem do fundamental. Hoje há muitos que mesmo na primária usam máquinas de calcular. Impensável à 30 anos. Resultado... nenhum miúdo consegue fazer uma conta de cabeça. O mesmo se sucederá (já se nota) com o corrector ortográfico. Daqui a uns anos se verá o efeito de tudo isto.

Francisco Castelo Branco disse...

Qualquer dia já nem é preciso professor na sala de aula, o Magalhaes faz tudo

expressodalinha disse...

Até porque: "O tio Magalhães tinha uma quinta..."

ci disse...

A situaçao da educaçao é a msm da saude...completamente podre...

beijo da ci

Francisco Castelo Branco disse...

Ministério e Sindicatos voltam a reunir-se hoje...

será desta?

Jorge disse...

Claro que ainda não foi desta. O que me custa a perceber é isto: a avaliação está parada, o que equivale a pura e simplesmente não se realizar qualquer avaliação no presente ano. Poderá qualquer sugestão para desbloquear ser pior do que isto?

Francisco Castelo Branco disse...

Se nao houver um modelo como é que se vai corrigir?

Para alterar é preciso alterar alguma coisa

Porquê suspender? é melhor ficar sem nada?

O PSD apresenta um modelo de suspensão....mais um

Jorge disse...

Mas na prática está suspenso. Apesar de toda a areia que atiram para os olhos.
E não é ficar sem nada. Existem propostas alternativas para esta transição. Ficar sem nada é o risco que corremos com esta intransigência. Acima de tudo é essencial assumir o erro. E este modelo é um erro crasso.

Francisco Castelo Branco disse...

A Ministra devia demitir-se?

SIM 24 (61%)

Nao 11 (28%)

Devia demitir-se 1 (2%)

Nao sabe \ nao responde 3 (7%)




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