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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Dia 2

Num espaço de oito meses, a mesma jovem recorreu à consulta de IVG (Interrupção voluntária da gravidez) por três vezes. Três abortos assim só porque sim. Recusa o Implanon, a pílula diz que nem sempre se lembra de tomar. Chega sempre acompanhada pelo namorado, ambos com 18 anos, residentes num dos bairros mais problemáticos da grande Lisboa. E a gente começa a ficar cansados. Até eu que assinei convictamente o objector de consciência e não devia ser perdida nem achada nestas histórias. No vestuário (que é da equipa multidisciplinar) ouvem-se comentários em voz baixa, frases marcadas de arrependimento e a minha colega do coração já só diz “mas porque é que eu não assinei logo aquela merda do objector?”. Cansa dizer sempre o mesmo. Mas sabia-se que era isto que ia acontecer.
Com a vitória do sim, com a desinformação e com a falta de coerência e valores na sociedade actual só podia dar nisto. Foi por isso que também defendi o “assim não”…
Do outro lado desta história está uma K. de 16 anos que veio de Cabo Verde especialmente para abortar. Era a melhor aluna do colégio onde estudava e nenhum familiar percebia como é que a gravidez tinha acontecido. Mas aconteceu e, quando a K. chegou, o prazo legal para abortar já tinha passado. Responderam-lhe com um não. Ninguém mais a quis ouvir. Ela ficou, ficou. Foi simplesmente ficando. E no dia que nasceu a filha, a K. chorou. E olhava para o fruto de uma violação hedionda e procurava espaço no seu coração para aceitar. Recriminava-se pelo amor que não tinha para dar. E a mim só me apetecia dar murros na parede e gritar que o mundo é uma grandessíssima injustiça.
Para a primeira é sempre fácil. Para a K. não houve psicóloga, não houve disponibilidade. Todos se desculpam agora porque, afinal, ninguém sabia. Ela não contou que tinha sido violada. E esse até era um dos casos de excepção que a antiga lei abrangia. (Ninguém conseguiu perceber o errado que existia por trás dos olhos baços daquela menina que não falava). Enfim, agora é fazer como o menino que devolvia ao mar as estrelas que encontrava na praia pela manhã (espero que conheçam a história). A Mayra (filha da K.) é minha afilhada. Talvez para esta eu tenha mesmo feito a diferença.

6 comentários:

expressodalinha disse...

TERTÚLIA VIRTUAL A 15 DE AGOSTO. Vão ao meu blogue. Novo sistema de registo.
(Depois comento o texto)

Anunn disse...

Como disse anteriormente noutro post, as mulheres que não tem a capacidade de serem mães deviam ser esterilizadas. E do meu ponto de vista, são apenas meios seres humanos (ou menos), para terem atitudes dessas…

Sobre a situação da menina cabo verdiana nem vou comentar...

anokas disse...

Anunn:

Não percebi o seu ponto de vista, contudo gostava de ser elucidada.
Pergunto-lhe: COMO e QUANDO é que uma pessoa pode saber se têm ou não capacidade para ser mãe?
É antes ou depois de engravidar? Há uma idade para se saber isso? será aos 12 anos? Faz-se um teste psicotécnico? Qual é o sistema de verifição da capacidade maternal?
Quais são as regras? Afinal quem é que pode saber quem tem capacidade para se ser mãe? Só se for Deus. Estou curiosa.

Sol

Adorei o seu texto mostra uma grande sensibilidade e dá uma grande margem de discussão. Muita coisa está mal. Uma grande falta de coerência, responsabilidade, sencibilidade e capacidade nos nossos serviços Publicos hospitalares e da segurança social. isto é uma balda e quem se lixa é o mexilhão, e quem quer saber?

Cleopatra disse...

Anokas, qdo quiseres ser mãe, com uma vontade enorme de criar, educar outro ser, ser responsável por ele, então aí tens de certeza capacidade para ser mãe.
Bjokas

Miguel Almeida disse...

Como mero curioso, e poetas nisto, não têm voto na matéria, prefiro só enaltecer a força, a coragem e o amor que a Sol tem para dar quer a esta recém-mamã, e à afilhada. Tal como disse e faço das minhas palavras as palavras da cleopatra. Não há idade pa ser mãe, mas quando existir um clique, uma vontade enorme de criar, e de educar outro ser humano, frágil e curioso. Então, aí tem de certeza capacidade de se ser Mãe. Só me falta desejar à Mayra, fruto de um ventre sofrido, muita sorte. Porque no mundo de hoje, é preciso sorte. Sorte em tudo. Começou bem, tem uma madrinha que vai de certeza tentar proporcionar-lhe coisas que a mãe, sozinha, não conseguiria.

Nas Pontas dos Dedos disse...

... há uma coisa transversal aos 2 casos... ausência de desejo pelo que foi concebido com consequente ausência de amor.
EU não gostaria de saber que nasci disso.

... A Vida só existe quando há Amor.
Descuidos, irresponsabilidades... oque lhe quiserem chamar mas... haverá necessidade de continuar com uma situação de angústia?

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