segunda-feira, 21 de julho de 2008

Dia 1

São 23h no bloco de partos de um hospital igual a tantos outros. Uma senhora brasileira de 21 anos, depois de muitos reforços de analgesia, muitos gritos e muita e santa paciência, acaba por parir um bebé lindo (essa dos bebés serem todos feios comigo não cola). Eu recebo-o e levo-o à mãe. Um grito de horror. Uns olhos que se fecham e eu oiço apenas “tira essa droga daqui, vou morrer com esse monte de sangue, me livra desse horror”. Vejo os olhos da médica, chefe de equipa, arregalarem-se mas nem me quero meter. Peso o miúdo, avalio o índice de Apgar, aspiro-o e começo a procurar as roupinhas. Que não encontro. Pergunto à mãe pelo enxoval do bebé que, afinal, não existe. Peço discretamente a uma auxiliar que vá buscar umas roupinhas à neonatologia. Nessa noite é impossível colocar o bebé à mama ou tentar aproximá-lo da mãe. Penso cá para os meus botões que amanhã também é dia e, como estou escalada para o internamento, posso ver a evolução da vinculação. São 5h (exactamente o que leram, cinco da manhã). Ainda não parei um segundo. Fiz tarde e segui noite. Estou a trabalhar há quase 16 horas. Ouço um grito da outra ponta da enfermaria. Corro para lá. É a senhora do parto que relatei que exige, possessa, um comprimido para secar o leite e a alta assinada à responsabilidade. Antigamente, antes dos bebés terem alta clínica, não podiam sair dos hospitais ainda que as mães assumissem a responsabilidade. Agora já podem. E foi por isso que, às 6h, eu dizia adeus ao pequenino, sem nome e sem roupa que saiu do hospital enrolado num cobertor que emprestámos, ainda com as roupas do hospital. Pensava que já tinha visto tudo. Mas na volta das sete da manhã aconteceu o impossível (que pelos vistos até é recorrente). Quando entrei num quarto individual uma doce mãe esmagava uma M. de dois dias debaixo de uma almofada de dormir. Não houve reanimador, médicos, enfermeiros ou boa vontade que chegassem. Há mais uma estrelinha no céu. E uma assassina à solta porque, afinal, parece que a senhora tinha desculpas. Foi a quebra hormonal. Daqui a uns dias, e com uns comprimidinhos, volta tudo ao normal. Há dias difíceis. E depois há estes dias assim. Inomináveis. Alguém me explica que mundo é este?
(Esta foi a minha primeira contribuição para o blogue, decidi que vou relatando alguns casos verídicos da minha experiência do dia-a-dia. Afinal, nem tudo o que é digno de notícia passa na televisão).

14 comentários:

Tretoso Mor disse...

Estou baralhado com este texto!...

A primeira criança saíu com a mãe, embora haja indícios de que não vai cumprir a sua função de mãe?...

No segundo caso, no qual, pela descrição, entendi que não foi acidental, a mãe sai impune, com um argumento de defesa?...

Desculpem as perguntas, mas se assim o entendi, estou estupefacto!...

Tretoso Mor

Sol disse...

Exacto! A primeira saiu com a mãe(?) e a segunda puérpera saiu directamente para casa, medicada e com consulta de avaliação pela psiquiatria dali a uma semana.

É a realidade que temos... Infelizmente!

Francisco Castelo Branco disse...

boa entrada Sol

Este caso é impressionante

expressodalinha disse...

Bem-vinda Sol. Esta história é bem vivido, não dá na TV e é dramática. Será a crise, os valores deturpados ou ausentes...?
Arrepiante!

linda disse...

Há situações que são injustas demais. Onde estão os valores morais, éticos e outros.Quem protegemos? Neste caso os fracos não são certamente. E é este o mundo que temos, infelizmente...

José disse...

Bolas...ja vi muito mas essa da brasileira chocou-me...e a outra, então...nem sei que pensar.......

Anónimo disse...

Relato chocante da vida. Infelizmente não constitui caso singular, nem inédito, pelo contrário existem inúmeros relatos semelhantes, na bibliografia médica e policial. Assim como existem métodos de diagnóstico precoce de depressões pós-parto. Contudo, quer os profissionais de saúde, quer os assistentes sociais como os psicólogos, são cada vez mais mal formados e menos motivados. Certo que a mãe não deixa de ser uma assassina, apesar de atenuantes, mas não é um sinal dos tempos. O que é um sinal dos tempos, é em vez de ter jogado o filho para um poço, ou abandonado ao relento, como era prática antiga, agora passa-se num hospital à frente de todos nós.
Não desmotive, como dizia o poeta, apanhe as pedras que encontrar no caminho e no final fará um castelo.

Marco Daniel Raposo disse...

Esse relato causou-me um arrepio de horror. Eu acredito que as pessoas são, na sua essência, boas. Contudo, às vezes o ser humano tem comportamentos que são inqualificaveis. Além da moral e da ética serem absolutamente atropeladas nas situações descritas, é também com horror que constato que (ao que parece) não houve actuação por parte das forças policiais, pelo menos na segunda situação...

Enfim.. É o país que temos, é o mundo em que vivemos...

Choca-me como pode uma mãe fazer isto a um filho...

Estou, apesar de saber que essas situações, infelizmente, ocorrem muitas vezes, chocado!!

É um relato impressionante!

Sol disse...

Anónimo: Eu realmente tento não desistir mas o q é certo é q as pessoas (e falo por mim) começam um curso acreditando que até podem mudar qq coisa, já nem falo de mudar o mundo. São coisas mínimas. Só que depois, quando as paredes da faculdade desaparecem e nos atiram aos leões... A gente percebe q há tanto comodismo, tanta lei do encosto, que toda a gente deixou de se importar... E começamos a pensar que há-de chegar o dia em que também nós nos vamos acomodar... E eu até tremo quando penso nisso...

Anónimo disse...

Sol, claro que te vais acomodar, todos acomodamos cada um há sua maneira. E se qaundo te acomodares olhares para trás e vires que foi porque já fizeste o teu caminho e mudaste o mundo (possível), então cumpriste a tua missão. A diferença mede-se com aqueles, que se acomodam antes de tempo, não olham para trás, porque preferem nem ver.

Francisco Castelo Branco disse...

Sol nao concordo contigo

Há sempre qualquer coisa para mudar.
E acomodar porque os outros se acomodam é pior.
Devemos não nos acomodar e não seguir o (mau) exemplo dos que se acomodam....

Temos de acreditar naquilo em que queremos e é o melhor para nós.
Não desistindo nunca daquilo em que acreditamos

A faculdade é um lugar de aprendizagem, mas o pós-uni também o é.
E aprendemos mais fora da faculdade do que dentro.
Pois na faculdade, apenas contam as leis e as regras (no meu caso....)

Poeta do Penedo disse...

Nesta sociedade actual, seja ela portuguesa ou não,o lado mais sério e cruel da vida esconde-se nos locais mais insuspeitos. Presumo que o texto em análise tenha sido escrito por uma jovem obstetra. Mas eu já vi e vivi tanta coisa feia, que me arrepiou, mas não me surpreendeu. Existe o caso contrário, o do filho que mata a mãe com 21 facadas. A senhora, exangue, desliza lentamente pelo vidro da janela, junto à qual foi executada pelo filho, sob o olhar horrorizado de testemunhas, que a vêem despedir-se da vida, com o sangue a esguichar por várias feridas do seu corpo, para a janela. O filho, o seu assassino, porque era toxicodependente, foi condenado a três anos de reclusão num hospital psiquiátrico.
Mas é claro, que num espaço onde se promove o surgimento da vida, se deparar com a morte...força minha amiga. Pense nas vidas que ajudou a iniciarem-se neste mundo e as boas memórias que muitas mães de si guardarão.

Anunn disse...

As mulheres que não tem a capacidade de ser mães deviam ser esterilizadas.

Acabava-se com muito sofrimento desnecessário.

blst disse...

Bem, rapariga... por esse caminho qualquer dia ganhas o primeiro prémio no concurso de engolir sapos... eu como socorrista vi muita coisa parva e estupida, mas isso nao tem escala nem medida possível de aplicação... até porque no outro dia rebocaram o carro a minha mãe porque tava mal estacionado e isso sim... é sempre fiscalizado a toda a hora... agora tentar eliminar (pra não dizer matar) bebés... isso são coisas menores...

Share Button